Policiais militares de São Paulo vão praticar, ilegalmente, atos privativos da Polícia Civil

A recente exclusão da Polícia Civil nas operações em conjunto com o Ministério Público na desarticulação de empresas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) abriu um flanco de descontentamento na corporação em relação à gestão do secretário Guilherme Derrite (PL). Representantes de sindicatos e delegados da categoria reclamam que, desde que chegou à pasta, […]

Por Editoria Delegados

A recente exclusão da Polícia Civil nas operações em conjunto com o Ministério Público na desarticulação de empresas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) abriu um flanco de descontentamento na corporação em relação à gestão do secretário Guilherme Derrite (PL).

Representantes de sindicatos e delegados da categoria reclamam que, desde que chegou à pasta, Derrite – que é capitão reformado da Polícia Militar – tem privilegiado os investimentos na PM, em detrimento à Polícia Civil.

A pá de cal que levou às reclamações públicas da categoria veio após a divulgação de um documento por parte do alto comando da PM estabelecendo diretrizes para que os policiais militares passem a elaborar os chamados Termos Circunstanciados (TCs).

Decisão da SSP desagrada Polícia Civil

Os TCs são os registros de ocorrências de menor gravidade e que são de responsabilidade da Polícia Civil.

Segundo a presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), a decisão é vista com preocupação entre os policiais civis.

“As forças de segurança precisam trabalhar em sintonia e harmonia. À Polícia Civil cabe o papel de investigar e de promover operações. À PM o trabalho nas ruas, de patrulhamento ostensivo e preventivo. Quando o estado passa a transferir atribuições da Civil para a Militar, a própria PM fica sem fazer o que, prioritariamente, é de sua alçada”, disse Jacqueline Valadares.

A delegada também destaca que o próprio Derrite, quando assumiu a SSP, prometeu uma integração entre as Polícias Civil e Militar e o tratamento igualitário das duas instituições.

“Essas decisões não são novas. Basta lembrar que no ano passado, a secretaria anunciou um aumento de salário para a categoria, optando por um reajuste muito maior para os policiais militares. Esses atos podem fragilizar ainda mais a estrutura policial como um todo. A população, que reclama tanto da insegurança, vai ser a mais prejudicada”, disse a presidente do Sindpesp.

“Cabe à secretaria unir as forças policiais e não confundir o trabalho das duas corporações, definidos pela Constituição Federal”, declarou.

O delegado Palumbo, deputado federal pelo MDB e representante dos policiais civis no Congresso, diz que Derrite está “usurpando a função dos policiais civis”.

“É um absurdo a Polícia Militar fazer TC. Isso é uma usurpação de função pública da Polícia Civil. Falta patrulhamento nas ruas de SP e eles ainda querem fazer a função de outro grupo. O secretário tem que colocar mais policiais na rua e não colocar a Polícia Militar para fazer o trabalho da Civil”, disse.

“Um delegado não pode oferecer uma denúncia criminal porque esse é papel do promotor. E um oficial da polícia militar não pode e não deve querer usurpar a função de um delegado ou escrivão, por exemplo”, completou.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que “o atual governo reconhece e valoriza as suas polícias de forma igualitária” (veja nota completa abaixo).

À TV Globo, o coronel Alexandre Vitorino Roldan, chefe da assessoria da Polícia Militar, afirmou que a ideia é “desburocratizar” o registro.

“A ideia básica de que o policial militar possa atender uma ocorrência no local dela, sem a necessidade de um deslocamento, sem a necessidade de uma segunda vitimização, de uma vítima que esteja no local da ocorrência, sem que precise ir até um distrito policial aguardar a vez das ocorrências mais graves, o termo circunstanciado tem esse objetivo de desburocratizar, garantir mais eficiência, garantir mais celeridade para o cidadão”.

Por causa da polêmica, a Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol do Brasil) notificou Guilherme Derrite sobre o que a entidade chama de “ilegalidades relacionadas a medidas institucionais recentemente implementadas no âmbito da Segurança Pública do Estado”.

“Causa perplexidade anúncios veiculados na imprensa dizendo que o governo de SP está atribuindo competência investigativa da Polícia Civil à Polícia Militar. (…) Não cabe à Polícia Civil, pela Constituição, a função de polícia ostensiva e preservação da ordem pública. De igual modo, não cabe à Polícia Militar o cumprimento de mandados de busca e apreensão, atividades de polícia investigativa ou de Polícia Judiciária”, afirmou a entidade.

Segundo o Sindpesp, a justificativa da SSP para autorizar a PM a registrar os termos circunstanciados é de que os policiais militares em serviço têm passado muitas horas nas delegacias para registrar esse tipo de ocorrência, impactando no trabalho de rua da corporação.

Os delegados Jacqueline Valadares (Sindpesp) e Palumbo, deputado federal pelo MDB

Porém, Jacqueline Valadares afirma que a demora se deve ao alto déficit de policiais civis em São Paulo.

“Nós temos um déficit de mais de 17 mil profissionais. Ou seja, a categoria está trabalhando com um efetivo 40% menor. Há duas semanas, a secretaria decidiu que não convocaria os quase 3.900 concursados de 2022. Só parte deles, cerca de 3.100. Sem reposição de pessoal, é impossível os policiais darem conta das demandas diárias”, declarou.

“Essa desculpa que eles dão não se justifica porque, agora, o pm vai ficar horas no batalhão, né? Porque alguém vai ter que fazer esse serviço [de registrar a ocorrência]. Vão tirar os policiais da rua para fazer esse trabalho e vão ficar horas no batalhão igualmente… Esses argumentos não se sustentam para essa usurpação de função pública”, declarou o delegado Palumbo.

“Quando você aumenta o salário de um acima do salário de outro, é como se você pegasse dois filhos e desse um presente mais caro para um e, para o outro, um presente inferior. É absurdo o que estão fazendo. A Polícia Civil está sucateada, tem um monte de viatura nova da Polícia Militar e não tem da Civil. As delegacias estão capengando, falta policiais, falta estrutura, falta manutenção de viatura, falta verba. Situação geral muito ruim. Não dá para eu ficar em silêncio”, declarou o deputado federal.

Audiência com o governador

O Sindpesp enviou em 28 de fevereiro um pedido de audiência de várias entidades da categoria com o governador Tarcísio de Freitas, a fim, segundo eles, de levar as demandas da categoria direto ao governador “sem intermediários”.

A audiência, contudo, não foi agendada ainda pelo Palácio dos Bandeirantes. O g1 procurou o governo de SP para saber os motivos, mas também não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.

“O que a categoria comenta é que existem dois filhos na Secretaria da Segurança: um filho está sendo preferido com muitos investimentos [Polícia Militar], e o outro preterido [Polícia Civil]. É o que se ouve o tempo todo entre os colegas”, afirmou a presidente do Sindpesp.

Em nota, o governo de São Paulo afirmou que atendeu ao “referido pedido de audiência no último dia 8. Na ocasião, o secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, se reuniu com os representantes do sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo. No fim de fevereiro, integrantes do governo estadual já haviam se reunido com os sindicalistas.”

Polícia Civil de SP entre as mais mal pagas do Brasil

As remunerações de policiais civis e policiais penais no estado de São Paulo estão entre as mais baixas do Brasil, apontou o ‘Raio-X dos profissionais de segurança pública’, estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgado em fevereiro.

O salário bruto médio de um policial civil no Brasil é de R$ 13.342,36, considerando as carreiras de escrivão, investigador e delegado.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou, em nota, que a valorização dos salários das forças de segurança foi uma das prioridades da gestão e que, assim que tomou conhecimento da situação, propôs reajuste de 13% a 31% para as carreiras policiais. Disse também que os servidores da Secretaria de Administração Penitenciária tiveram reajusta acima da inflação em 2023, com 6% de aumento.

  • Em 2023, a remuneração média nacional de um investigador foi de R$ 11.704,41;
  • Em São Paulo, investigadores receberam R$ 9.830,92 por mês, em média (o 7º pior salário do Brasil);
  • Valor menor do que foi pago, por exemplo, no Acre (R$ 9.890,39), em Minas Gerais (R$ 10.110,94) e no Rio Grande do Norte (R$ 10.353,97);
  • Investigadores do Amazonas (R$ 21.831,49) receberam R$ 12 mil a mais do que os paulistas;
  • A menor remuneração foi encontrada no Paraná (R$ 8.947,74);

“A Polícia Militar realiza estudos para implementar medidas administrativas visando à elaboração do termo circunstanciado de ocorrência (TCO), conforme previsto na Lei Federal 9.099/95 e decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (ADIs 5.637, 6.245 e 6.264), medida já adotada em 17 estados brasileiros e autorizada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. O objetivo é agilizar o atendimento ao cidadão, otimizar recursos e fortalecer as investigações da Polícia Civil em crimes de maior potencial ofensivo, sem comprometer o policiamento preventivo e ostensivo.

Quanto à operação citada, a SSP incentiva a integração das forças de segurança para enfrentar o crime organizado, promovendo parcerias e ações conjuntas entre a Polícia Militar, Polícia Civil e outros órgãos, como o Gaeco. Essa colaboração não inviabiliza o trabalho da Polícia Civil, que mantém suas investigações em andamento em todo o estado de São Paulo.

Valorização policial:

O atual Governo reconhece e valoriza as suas polícias de forma igualitária. Prova disso, foi o reajuste salarial médio de 20,2%, acima da inflação de 4,65% no acumulado segundo IPCA, considerado um feito inédito para um primeiro ano de gestão entre as administrações paulistas mais recentes.”

Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo emite Requerimento de Informação sobre o caso.

g1

DELEGADOS.com.br
Portal Nacional dos Delegados & Revista da Defesa Social

Veja mais

Tales Gomes segue, pela 9ª vez seguida, na Lista dos Melhores Delegados de Polícia do Brasil! Censo 2026

A escolha dos melhores delegados consolida, para sempre, os nomes e as histórias dos delegados e das delegadas. Promove valorização do cargo, reconhecimento na carreira, identificação de competência, visibilidade dos

Limites e ferramentas de jogo responsável

O objetivo do limite não é permitir que perdas sejam recuperadas em uma nova sessão, mas reduzir a exposição quando a atividade começa a ultrapassar o orçamento planejado. Tentar contornar

Anamelka Albuquerque segue, pela 10ª vez seguida, na Lista das Melhores Delegadas de Polícia do Brasil! Censo 2026

A escolha dos melhores delegados consolida, para sempre, os nomes e as histórias dos delegados e das delegadas. Promove valorização do cargo, reconhecimento na carreira, identificação de competência, visibilidade dos

Luccy Keiko segue, pela 5ª vez seguida, na Lista dos Melhores Delegados de Polícia do Brasil! Censo 2026

A escolha dos melhores delegados consolida, para sempre, os nomes e as histórias dos delegados e das delegadas. Promove valorização do cargo, reconhecimento na carreira, identificação de competência, visibilidade dos

Tatiana Trigueiro entra para a Lista das Melhores Delegadas de Polícia do Brasil! Censo 2026

A escolha dos melhores delegados consolida, para sempre, os nomes e as histórias dos delegados e das delegadas. Promove valorização do cargo, reconhecimento na carreira, identificação de competência, visibilidade dos

Delegado de Polícia pode determinar uso de tornozeleira eletrônica

Decisões Jurídicas Policiais: Lei 15.383/2026 prevê monitoramento imediato em situações de risco, dispositivo de alerta às vítimas e punição maior pelo descumprimento de medidas protetivas

Delegada fingiu ser mãe de adolescente sequestrada para negociar com suspeitos

(ES) A estratégia ajudou a polícia a encontrar a adolescente em menos de 48 horas. Ela foi resgatada com vida e a família não precisou pagar o valor exigido
Veja mais

Fachin suspende decisões de Mendonça e Dino sobre direção da PF

09SET26 -(1)
Fachin suspende decisão de Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da PF e decisão de Dino que reintegrou diretor

Salário de agente, escrivão e investigador não pode ficar vinculado ao de delegado, decide STF

09SET26 -
Supremo invalida vinculação da remuneração de policiais civis à de delegados de Polícia Civil

Dino determina reintegração de diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues

09SET26 -
Flávio Dino reverte afastamento de cúpula da PF, critica 'decisão em causa própria' e aponta risco a investigações do caso 'Dark Horse'

Fenadepol e ADPF divulgam notas de repúdio após afastamento de dirigentes da Polícia Federal

08SET26 -(4)
Entidades Federais defenderam a preservação das prerrogativas institucionais do órgão

11 Diretores da Polícia Federal apoiam Andrei Rodrigues e entregam cargos

08SET26 -(1)
O pedido de vista não derruba a liminar de André Mendonça, que continua valendo. Com o afastamento de Andrei, o diretor-executivo da PF, William Murad, deve ficar interinamente na chefia

Advogado é preso após filmar pernas de guarda municipal em supermercado

(PI) Um advogado foi preso sob suspeita de importunação sexual. O homem teria filmado, com um telefone celular, as pernas de uma guarda municipal no supermercado Pão de Açúcar, na

Ministro André Mendonça afasta Andrei Rodrigues da chefia da Polícia Federal

08SET26 -
Ministro do STF diz que 'há mais de 30 dias tem sido monitorado pela Polícia Federal' e submete decisão para análise da Segunda Turma
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.