Quanto vale a vida de um policial?

Já paramos para nos perguntar quem perde quando morre um Policial? Será que nesse país nos fazemos essa pergunta? O que significa para a sociedade a morte de um Policial em razão da função? Considerando a sociedade como o conjunto de governantes, cidadãos civis, famílias, servidores públicos, incluindo aqueles que formam a própria estrutura […]

Por Editoria Delegados

Já paramos para nos perguntar quem perde quando morre um Policial?

 

Será que nesse país nos fazemos essa pergunta? O que significa para a sociedade a morte de um Policial em razão da função? Considerando a sociedade como o conjunto de governantes, cidadãos civis, famílias, servidores públicos, incluindo aqueles que formam a própria estrutura do sistema. Importante lembrar que o Brasil é um dos poucos países onde se sequestra, tortura e mata um Policial sem qualquer motivo, ou seja, pelo simples fato de ser Policial, algo semelhante as perseguições religiosas do Oriente. Para agravar ainda mais a situação, este país é também um dos poucos que aceita esse cenário sem se importar, sem reagir e sem adotar qualquer medida que vise a diminuição desse tipo covarde de delito. Vamos isolar cada efeito, dentro do possível, de acordo com o dano e as vítimas colaterais dessa perda nos micro sistemas desse conjunto.

 

1 – Para a família do Policial: Aqui temos a mais danosa e dolorosa consequência da morte em razão da função de um Policial. Uma família, pai, mãe, esposa e filhos, acompanham as formaturas do seu ente querido, seu dia a dia, sua luta diária pela sobrevivência e o quanto isso custa para toda a família que sofre as consequências junto com o Policial. Quando esse ente querido se torna vítima da violência a qual ele é criado para combater, uma ou várias famílias se tornam não só vítimas, mas também criam a certeza de que o Estado não protege seus agentes, chegando ao absurdo de diversas famílias impedirem seus entes de ingressar nas forças policiais;

 

2 – Para os agentes de Segurança Pública: Essa morte cria uma sensação de impotência, por falta de apoio do sistema e da sociedade, com a certeza de que o caso está perdido e que o melhor a fazer é “não fazer”. Assim, temos a autoestima dos agentes perdida, ou diminuída em maior parte, além de uma revolta por ver que ninguém se importa com o verdadeiro massacre de uma classe de trabalhadores;

 

3 – Para a Sociedade: O cidadão tem apenas um liame entre seus direitos à vida, à propriedade, a integridade física e aos direitos constituídos, esse liame se chama força policial, sem ela, casas são invadidas, pessoas são roubadas, violentadas, ou seja, vítimas de toda sorte de violência aos seus bens mais preciosos, vida, liberdade e propriedade. Quando o agente de Segurança Pública é atacado, não é só ele que sofre o dano, vez que toda a sociedade perde uma força na defesa de seus direitos. Imagine que se o agente tem sua integridade física respeitada, ele tem equilíbrio e autoridade para se preocupar com os cidadãos, porém, se ele tem que tentar proteger a si mesmo a todo o tempo e o pior, sem os recursos e amparo necessários, quem perde é o cidadão e a sensação de ser refém de um país dominado pelo crime aumenta;

 

4 – Para o governo: Ingressando na seara dos prejuízos materiais temos que um Policial morto, significa que o estado terá que contratar outro servidor para repor aquela perda, e que também que terá que pagar a família daquele agente tombado, isso causa um grande prejuízo financeiro ao estado, porém, o estado ao invés de tentar economizar realizando ações que visem a garantir a vida do agente de Segurança Pública, ele quer aumentar os tributos da classe, é como um vazamento de água, que o dono do imóvel ao invés de consertar o vazamento e diminuir os gastos, prefere comprar um caminhão pipa e encher a caixa d´água para ela vazar ainda mais. Neste ponto nos perguntamos, por exemplo, porque não blindar uma viatura? Quantos policiais morrem em serviço por disparos de armas de baixo calibre que poderiam ser parados por um vidro blindado? Quando se blinda uma viatura, se diminui a chance de morte de pelo menos 8 policiais, considerando que em 48 horas, 8 policiais trabalham nesse veículo;

 

5 – Para o conjunto inteiro (sociedade): A certeza da impunidade, aliada a falta de apoio aos policiais para realizarem sua função, agravam ainda mais o quadro. Na certeza de que nada acontecerá, marginais, maiores e menores se tornam cada vez mais agressivos e ousados nossas forças policiais, mas, acuadas e vitimadas. Assim posso dizer que já criamos uma geração do medo, pessoas deixando de sair de casa, buscando Shoppings, que hoje também vem sendo atingidos pela violência e continuamos girando e girando, sempre com o mesmo discurso, “estamos trabalhando para diminuir esse quadro”, estamos?

 

Em minhas considerações finais quero ressaltar que existem diversos pontos que merecem ser revistos, tais quais, a participação de outras forças na Segurança Pública, Polícia Municipal, Forças Armadas, e outros atores que precisam ter seus papéis bem definidos. Por exemplo, o crime em comunidades carentes e no Brasil em geral, não visa apenas o lucro, eles querem o domínio de território. Se a polícia não entra em uma comunidade carente, e é forçada a deixar aquele território livre de suas ações, certo é que o crime ali irá compensar e aumentar. Quando se busca atuar nesse cenário, pessoas que não entendem nada de segurança pública, que nunca atuaram na prática de Segurança Pública, ficando atrás das teorias e demais argumentos que tendem a vitimizar os agressores, dizem que para pacificar aquele local tem que se comprar sua população com benefícios, estes que na verdade deveriam ser prestações regulares a toda a sociedade e que também não funcionam adequadamente em bairros sem violência. Indo além, a falta desses e a pobreza, não deveriam servir de desculpas para a criminalidade, no Nordeste as condições de vida são péssimas, e isso não torna aquelas pessoas violentas, isso significa que precisamos ter pesquisadores sérios, um acesso aos cursos de mestrado e doutorado sem essa influência perversa de pessoas que só querem criticar e não construir. Com certeza a evolução da sociedade para pela valorização do aparato policial.

 

Sobre o autor:

 

Gurgel Soares é Policial, Especialista em Direito Público e Tributário. Pós-Graduado em Políticas de Justiça Criminal e Segurança Pública. Presidente do Instituto Brasileiro de Segurança Pública e Pesquisa – Ibrasppe. Pesquisador e atuante no cenário de Segurança Pública.

 

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