Por que Carla Cepollina foi absolvida?

    Não havia prova direta contra ela, nenhuma testemunha viu o momento do disparo e ela negava ter matado o coronel Ubiratan Guimarães, em 2006. O promotor de Justiça, assim como o assistente de acusação, procurou colocar em evidência os indícios incriminadores (indícios vários). Mas faltaram mais provas técnicas, mais investigação. Na ausência de […]

Por Editoria Delegados

 

 

Não havia prova direta contra ela, nenhuma testemunha viu o momento do disparo e ela negava ter matado o coronel Ubiratan Guimarães, em 2006. O promotor de Justiça, assim como o assistente de acusação, procurou colocar em evidência os indícios incriminadores (indícios vários). Mas faltaram mais provas técnicas, mais investigação. Na ausência de provas diretas e seguras, ganham relevância ímpar os debates orais, bem como a capacidade de impressionar de cada um. A verdade, dentro do processo penal, é sempre a verdade processualmente adquirida, que depende de um milhão de fatores (nem sempre legais).

 

Quando as provas são dúbias, o que manda é a expressividade e, nesse ponto, o defensor (Malavasi) foi bastante competente para explorar os pontos duvidosos (indefinição do horário e dia da morte, recebimento de uma mensagem — um torpedo — no celular da vítima por volta das 11h27 do domingo, dúvida sobre a existência do tiro ou não no sábado etc.). Por seu turno a defensora entrou em discussões pessoais com o assistente de acusação, anulando sua carga acusatória. A chamada capacidade de ação acabou favorecendo a defesa. Tudo conta do momento do julgamento: poder econômico, capital cultural (ré formada pela USP), influência política, status social, capacidade de verbalização (falar bem ou não), gestos, o fato de a ré ter comparecido perante os jurados, aparência das pessoas (a ré não correspondia ao estereótipo do marginalizado difundido pela mídia) etc.

 

Tudo isso conta, porque as decisões são tomadas levando em consideração também fatores extrajudiciais e extralegais (psicológicos, sociológicos, culturais etc.). Pessoas que parecem ser dignas de crédito (pela forma de vestir, de falar, de impressionar) conquistam apreciáveis vantagens.

 

Os chamados códigos particulares dos juízes (second codes) existem. Há muitas vezes preconceitos raciais, religiosos, culturais etc. Pessoas estigmatizadas, estereotipadas, discriminadas, de um modo geral, são extremamente prejudicadas. O contrário (pessoa com status, bem apresentável, rica ou bem posicionada, bem formada etc.), normalmente, leva grande vantagem, salvo quando se trata de um julgamento disruptivo (como é o caso do mensalão, onde o status, o poder político, a capacidade de contratar bons advogados etc., tudo está funcionando contra os réus).

 

Outro fator fundamental a ser considerado diz respeito ao julgamento da própria vítima. Ela também é julgada, pelos seus antecedentes, pelo seu status, pela sua respeitabilidade etc. Contra o coronel Ubiratan pesava o fato de ser acusado de ter comandado a operação Carandiru, que culminou com a morte de 111 presos. Tudo isso pesa no julgamento. Também o clima de suspeita geral contra a polícia, suspeita de que vem matando inocentes, em resposta às mortes contra policiais. E tudo isso acontecia bem na semana do julgamento.

 

A defesa soube bem explorar o que se chama de “blaming the victim”, ou seja, massacre à vítima (para livrar a ré de responsabilidade). E, ademais, todos sabemos que os jurados preferem absolver um culpado que condenar um inocente. Não havendo certeza, sabemos que a dúvida favorece o réu. A ré, de outra parte, já tinha sido impronunciada em primeira instância. Já havia um juiz que não tinha se convencido da sua responsabilidade. Por força de um recurso é que ela acabou sendo levada a júri. Por todos os motivos que acabam de ser alinhados pode-se prognosticar a grande dificuldade de se vencer novo recurso para mandar a ré a novo júri. Isso dificilmente vai acontecer.

 

Ironia do destino: todas as incertezas, parcialidades e nebulosidades processuais que, em seu momento, favoreceram o coronel Ubiratan nos seus processos relacionados com o caso Carandiru acabaram por beneficiar precisamente a pessoa acusada de ter sido o seu algoz. Voltas que o mundo dá!

 

Para aqueles que são amantes do tribunal do júri, sobretudo os jovens advogados, casos como o de Carla Cepollina são imperdíveis. Suas lições são memoráveis para a construção do futuro profissional

Sobre o autor

Luiz Flávio Gomes é advogado e professor. Fundador da Rede de Ensino LFG, diretor-presidente do Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flávio Gomes. Acompanhe meu Blog. Siga-me no Twitter. Assine meu Facebook.

 

DELEGADOS.com.br
Revista da Defesa Social & Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

A exigência do contraditório e da ampla defesa no inquérito policial

Por Rafael Francisco Marcondes de Moraes e Francisco Sannini

Delegado Michel Sampaio rebate acusação de perseguição e aponta retaliação de servidora

(MA) Michel Sampaio formalizou uma representação criminal junto à Corregedoria Geral da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, apontando possíveis crimes de abandono de função, peculato-desvio e fraude processual

Lei Orgânica Nacional: ainda sobre a aglutinação de cargos. A questão da constitucionalidade

Por Eduardo Luiz Santos Cabette

Delegado Charles Pessoa lidera pesquisa para deputado federal no Piauí!

(PI) Delegado do Povo: Charles Pessoa conquista os corações dos piauienses nas ruas e nas redes

Delegados da PF cobram cúpula da Academia Nacional sobre exclusão de colega por ‘incompatibilidade de ideias’

ADPF oficia ANP para obter justificativas sobre exclusão de Delegado Federal da equipe docente

Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis: As Alterações dos Cargos Policiais

Por Eduardo Luiz Santos Cabette

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

Por Francini Imene Dias Ibrahin (Sindpesp)*
Veja mais

Chico Lucas assume coordenação de escritórios nacionais de combate às facções

08JUL26 -
Secretário Nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, fortalece a atuação integrada entre as forças de segurança estaduais e federais no enfrentamento às organizações criminosas

Paulo Gondim segue, pela 3ª vez, na Lista dos Melhores Delegados de Polícia do Brasil! Censo 2026

POST MELHORES DELEGADOS BRASIL 2026 PAULO GONDIM
A escolha dos melhores delegados consolida, para sempre, os nomes e as histórias dos delegados e das delegadas. Promove valorização do cargo, reconhecimento na carreira, identificação de competência, visibilidade dos

Crescente popularidade das plataformas digitais baseadas em aplicativos

07JUL26 - (1)

O entretenimento digital evolui cada vez mais em torno dos aplicativos móveis, pois eles se ajustam melhor aos hábitos do público moderno. No Brasil, onde o smartphone se tornou o

Três são presos após sequestro de idosos e comemoração em hotel, na PB

04JUL26 -
(PB) Atuou na investigação o delegado Lucas Sá, da PCPB

Em João Pessoa, secretário do Governo Lula destaca integração entre estados e reforça combate às facções criminosas com ‘cooperação’

Francisco Lucas, Secretário Nacional de Segurança Pública
(PB) Representando o ministro da Justiça, Chico Lucas apresentou ações do programa Brasil Contra o Crime Organizado e defendeu cooperação entre forças de segurança de todo o país

Duelos, Desafios e Legítima Defesa

04JUL26 -
Por Eduardo Luiz Santos Cabette

Entidades de Delegados de Polícia emitem nota de pesar pelo falecimento do delegado Michel Saliba

Delegado de Polícia Federal Michel Brasil Saliba
Michel Brasil Saliba foi atingido durante cumprimento de mandado de busca no apartamento da companheira do policial militar. Delegado foi levado ao hospital em estado grave, mas não resistiu
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.