O “Titanic” seria a melhor metáfora do Brasil? Por Luiz Flávio Gomes

    Se o “Titanic”, que foi para o fundo mar há 100 anos, é a maior metáfora do mundo (como disse Veríssimo), é algo possível. Que é a melhor metáfora para o Brasil parece não haver dúvida nenhuma. Mas há uma diferença entre ele e o Brasil: o “Titanic” afundou e já se acabou; […]

Por Editoria Delegados

 

 

Se o “Titanic”, que foi para o fundo mar há 100 anos, é a maior metáfora do mundo (como disse Veríssimo), é algo possível. Que é a melhor metáfora para o Brasil parece não haver dúvida nenhuma. Mas há uma diferença entre ele e o Brasil: o “Titanic” afundou e já se acabou; o Brasil, com a aparência enganosa de potência mundial (7ª economia do mundo), vem se expandindo economicamente, mas, ao mesmo tempo, se exaurindo diariamente com as suas contradições e mazelas, com a roubalheira e a corrupção, sobretudo política e empresarial, destacando-se o seu pecado original praticado pela exploração escravagista, com todas as nefastas consequências daí decorrentes, tais como as desigualdades sociais, econômicas e culturais, as discriminações, o autoritarismo, a marginalização de grandes parcelas da população, a violência estrutural, individual e institucional, a corrupção, o nepotismo, o clientelismo etc.

O “Titanic” serve de paradigma para a sociedade brasileira porque nada simboliza com mais fidedignidade a divisão de classes que um navio, que abriga gente do porão aos “decks” superiores elitizados. No porão do nosso navio se encontram os trabalhadores mal assalariados e sem perspectiva futura, os estudantes com péssima qualidade de ensino, os professores mal remunerados, os policiais espoliados, os excluídos, os marginalizados, os descartáveis ou elimináveis. Sempre estiveram no porão, é verdade, mas finalmente perceberam que possuem a posse do “casco do navio” e isso pode ter consequências incalculáveis para os que estão nos decks de cima.

No Brasil ainda não tínhamos percebido (por isso que muito sofremos com o medo e a insegurança, com o terror das televisões, com os toques de recolher, com os assassinatos fúteis etc.) que são os habitantes dos porões dos navios (negreiros) que detêm o domínio dos seus cascos social e planetário. Na verdade, com a globalização, o navio terráqueo se tornou único para todos. Sempre que os habitantes dos porões “furam” o casco do navio (com protestos ordeiros e justos, contra as injustiças dos sistemas capitalistas neoliberal ou aristocrata-escravagista), naturalmente o risco de naufrágio atinge todos, incluindo os ricos, os brancos, a elite, pouco importando a posição de cada um dentro do navio.
 
De nada adianta, de agora em diante, a construção das indecentes muralhas divisórias dos territórios demarcadores do apartheid. Viver em bairros ricos, mas cercados por todos os lados de miseráveis e marginalizados, de trabalhadores descontentes e explorados, tem a mesma sensação daqueles que desfrutavam da primeira classe do “Titanic” no momento do seu naufrágio.
 
Os que foram jogados para os porões do navio planetário, pelos detentores dos poderes econômico, financeiro e político, estão agora “furando” diariamente o casco do navio social (mediante protestos civilizados), porque não vislumbram alternativas de progresso na vida. A cada “furo no casco” mais arrepiada fica a elite aristocrata-escravagista, que reage por meio da polícia, sempre com mais violência. E violência, como sabemos, só gera violência.
 
Um amigo me contou que, há pouco tempo, falando telepaticamente com um chefe indígena da tribo Tupi, um historiador dos genocídios portugueses, este lhe teria dito o seguinte: “Enquanto os que comandam o Brasil não admitirem eticamente que todos somos seres humanos, que jamais podemos ser tratados ou reduzidos a coisas, a animais ou insetos; enquanto não pedirem desculpas e se reconciliarem com os discriminados e excluídos, com os estudantes carentes e trabalhadores espoliados, nós não desenterraremos da terrae brasilis a maldição que rogamos em 1.500 contra esses exploradores escravagistas, que vivem num dos mais belos paraísos naturais do mundo, mas sem nenhuma tranquilidade nem segurança, ou seja, sem civilização”.
 
O pecado original do escravagismo e da exploração continua sangrando nosso País e seus habitantes indefesos, que somente agora estão percebendo a diferença entre a barbárie e a civilização.
 
Sobre o autor

LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista e coeditor do portal atualidades do direito. Estou no luizflaviogomes@atualidadesdodireito.com.br

 

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