‘A investigação virou um show de horrores’, por Rogério Antonio Lopes

    Nos últimos tempos as investigações feitas pela polícia, e também por outros órgãos, tem se transformado em verdadeiros shows em tempo real, a cada lance um novo frisson, a cada informação especialistas e mais especialistas comentando os detalhes, uns a favor outros contra, repórteres “especiais” criando teorias da conspiração etc.   Em todo […]

Por Editoria Delegados

 

 

Nos últimos tempos as investigações feitas pela polícia, e também por outros órgãos, tem se transformado em verdadeiros shows em tempo real, a cada lance um novo frisson, a cada informação especialistas e mais especialistas comentando os detalhes, uns a favor outros contra, repórteres “especiais” criando teorias da conspiração etc.

 

Em todo esse arcabouço parece que a dignidade da “pessoa humana” é o que menos importa, mais relevante são as opiniões dos “especialistas”, que sem conhecer nada sobre o fato declinam ilações que vão do ingênuo ao surreal.

 

Casos como o da família de PMs assassinados em São Paulo (poderia citar dezenas), são exemplos enfáticos dessa total falta de responsabilidade, que além de tratar sentimentos e pessoas com desprezível desimportância, prejudicam as investigações e ajudam a elevar o nível já assombroso de impunidade no país.

 

Quem faz a investigação tem de ser contido, não pode se deixar deslumbrar pelo primeiro holofote, deve passar à imprensa todos os fatos (que podem ser declinados) porém, na hora certa, quando já houver indicativos suficientes e não apenas informações vagas, contestáveis e frágeis.

 

É constrangedor investigadores virem diante das câmeras acuados e sempre na defensiva, esgrimindo contra monstros que eles próprios criaram, a imprensa por sua vez exerce sua atividade principal que é fiscalizar e informar, cabendo aqui um mundo de subjetividade dentro do jornalismo interpretativo, investigativo, e baseado em “evidências”.

 

Nos casos dessa natureza são tantas idas e vindas vazias e frustrantes que a sensação começa a ser de conformismo com o inevitável: nunca se saberá com “certeza” os autores do crime. Investigador e imprensa precisam compreender mais sobre o significado da fase investigativa da persecutio criminis, o real significado de certeza e mais, que ela nada tem a ver com a verdade, algo totalmente diverso.

 

Para que tudo isso seja compreendido, e se sobreponha a nossos preconceitos, é inarredável aceitar que vivemos (por enquanto) em um Estado Democrático de Direito, onde todos são considerados inocentes até que uma sentença transitada em julgado considere o contrário, e mesmo assim (em alguns casos), a certeza absoluta nunca estará presente.

 

A quem faz pilhérias dessa máxima, lembro o caso dos Irmãos Naves ocorrido no ano de 1937 na pequena cidade e Araguari, interior de Minas Gerais: o primo Benedito desapareceu, alguém achou que os irmãos Sebastião e Joaquim o tinham matado, investiga daqui, investiga de lá, o Delegado nada encontrou, chamaram então o “Chico Loco” (polícia de Getúlio), uma tortura aqui e outra ali e logo tudo foi esclarecido e os irmãos condenados e presos, ou melhor, presos e depois condenados, um morreu na cadeia (opinião pública satisfeita, imprensa regozijando, enfim a “justiça foi feita”).

 

Quinze anos depois o Benedito aparece andando pelas ruas de Araguari, e olhe que todos tinham “certeza” da culpa dos irmãos. Esse caso emblemático evidencia que investigação policial é algo complexo, exige grande consciência de responsabilidade, não pode se deixar influenciar por quaisquer pressões e acima de tudo, não é sentença, só uma pessoa (órgão) é que pode opinar sobre esse quesito: o Juiz.

 

Desde 1937 lá se vão quase cem anos, não parece que aprendemos grande coisa.
 
Rogério Antonio Lopes é Delegado de Polícia no Estado do Paraná.
www.segurancaecidadania.com

 

DELEGADOS.com.br
Revista da Defesa Social & Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

Fachin suspende decisões de Mendonça e Dino sobre direção da PF

Fachin suspende decisão de Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da PF e decisão de Dino que reintegrou diretor

Salário de agente, escrivão e investigador não pode ficar vinculado ao de delegado, decide STF

Supremo invalida vinculação da remuneração de policiais civis à de delegados de Polícia Civil

Dino determina reintegração de diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues

Flávio Dino reverte afastamento de cúpula da PF, critica 'decisão em causa própria' e aponta risco a investigações do caso 'Dark Horse'

Fenadepol e ADPF divulgam notas de repúdio após afastamento de dirigentes da Polícia Federal

Entidades Federais defenderam a preservação das prerrogativas institucionais do órgão

11 Diretores da Polícia Federal apoiam Andrei Rodrigues e entregam cargos

O pedido de vista não derruba a liminar de André Mendonça, que continua valendo. Com o afastamento de Andrei, o diretor-executivo da PF, William Murad, deve ficar interinamente na chefia

Advogado é preso após filmar pernas de guarda municipal em supermercado

(PI) Um advogado foi preso sob suspeita de importunação sexual. O homem teria filmado, com um telefone celular, as pernas de uma guarda municipal no supermercado Pão de Açúcar, na

Ministro André Mendonça afasta Andrei Rodrigues da chefia da Polícia Federal

Ministro do STF diz que 'há mais de 30 dias tem sido monitorado pela Polícia Federal' e submete decisão para análise da Segunda Turma
Veja mais

Uso de algemas em advogado no ‘exercício da advocacia’: decisões jurídicas policiais adotadas

Tipicidade, metodologia de abordagem, itinerário de atos, captura, uso de algemas, condução e autuação

Piauí completa quatro meses consecutivos sem registros de latrocínio

02SET26 -
(PI) Dados da Segurança Pública apontam redução contínua nos últimos três anos

Aviator online: como a regulação brasileira enquadrou os crash games e o que isso muda para o jogador

01SET26 -
Em 2026, com mais de 25 mil URLs de plataformas bloqueadas pelo SPA e 550 contas bancárias encerradas, o mercado regulado tem ferramentas reais para fazer cumprir essas garantias, e

Promotor de justiça abandona apurações de concursos por temer pistolagem, CV e PCC

Promotor Coaracy (direita) é um nome conhecido no estado porque foi procurador-Geral de Justiça de Alagoas
(AL) Titular da 17ª Promotoria de Justiça da Capital/Fazenda Pública Estadual, Coaracy é um nome conhecido no estado porque foi Procurador-Geral de Justiça de Alagoas entre 2005 e 2008.

Designer cria camisa capaz de ‘esconder’ pessoas de câmeras de vigilância com IA

Designer Simon Weckert criou camisa capaz de esconder pessoas de câmeras de vigilância com IA
'Camisa havaiana mais feia já vista no planeta' de Simon Weckert impede que tecnologia identifique o usuário como um 'ser humano padrão'

Ministério Público de SC arquiva caso de policial que matou detenta dentro de viatura para salvar colega enforcada

MP POST270826 -
(SC) Investigação e perícia concluíram que agente disparou contra presa em legítima defesa para salvar motorista que estava sendo sufocada com algemas.

“Mãe te avisou”: mulher lamenta morte de filho após roubar delegado

(SP) Nas redes sociais, a mãe do jovem diz que sempre batalhou e ensinou os caminhos certos, mas acabou perdendo o filho para a ostentação
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.