Por que a morte de líderes do crime organizado raramente desmantela suas estruturas?

Por Raquel Gallinati e Rodolfo Laterza

Por Editoria Delegados

Delegada Raquel Gallinati (diretora da Adepol do Brasil) e Delegado Rodolfo Laterza (presidente da Adepol do Brasil)

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), projeta uma imagem social e política de vitória que, embora relevante do ponto de vista operacional, exige uma leitura mais cautelosa.

A eliminação de uma liderança criminosa não equivale necessariamente à desarticulação da organização que ela comandava. A máquina criminosa permanece: as cadeias logísticas continuam operando, os fluxos financeiros permanecem ativos e as estruturas de comando se reorganizam rapidamente. Os líderes são substituídos, mas o sistema criminoso permanece organicamente funcional e eficaz, especialmente quando baseado no narcotráfico e na lavagem de dinheiro. A resposta imediata do CJNG após a operação expôs essa realidade.

Bloqueios de estradas, veículos incendiados, ataques coordenados, confrontos armados em vários estados, cidades paralisadas e uma população submetida ao medo coletivo. Não houve improvisação. Houve estratégia da organização criminosa, que opera com métodos de guerra de guerrilha.

Nesse contexto, a violência brutal operada pela organização cumpre um claro papel de demonstração social baseada na coerção, buscando reafirmar o poder, testar os limites institucionais e impor o terror como mecanismo de controle.

Organizações criminosas brasileiras que atuam na mesma linha dos cartéis mexicanos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), há muito ultrapassaram o modelo clássico de criminalidade. Operam como estruturas hierárquicas e financeiramente robustas, com ramificações interestaduais, conexões internacionais, sofisticadas redes de lavagem de dinheiro e significativa capacidade de mobilização coordenada. São sistemas organizados.

Prisões de chefes, operações de impacto e neutralizações estratégicas são instrumentos indispensáveis ​​para a atuação do Estado. Mas revelam limites evidentes diante de organizações resilientes, adaptáveis ​​e profundamente enraizadas em fluxos econômicos ilícitos. O problema central é menos visível e mais profundo.

O crime organizado contemporâneo não depende exclusivamente da violência. Ele se sustenta, sobretudo, pelo poder econômico, pela infiltração em setores formais, pela sofisticada ocultação patrimonial e pela diversificação de atividades ilícitas. Muitas operam segundo a lógica do controle territorial de comunidades pouco desenvolvidas, sem a presença do Estado, o que lhes permite desenvolver uma capacidade de influenciar grupos sociais setorizados. Quando essas estruturas conseguem lavar recursos em larga escala, manter cadeias logísticas complexas e coordenar ações simultâneas, o impacto vai além da dimensão da Segurança Pública. Ele atinge a própria percepção da autoridade estatal e constitui um desafio à soberania do Estado.

México e Brasil, cada um em seu próprio contexto, compartilham uma adversidade estrutural. A eliminação da liderança produz efeitos táticos relevantes, mas raramente efeitos sistêmicos duradouros de natureza estratégica. O tráfico de drogas e armas não entra em colapso e as operações ilícitas não cessam, pois o fluxo financeiro que sustenta as organizações criminosas não desaparece. Confrontar organizações dessa magnitude exige mais do que respostas emergenciais ou vitórias simbólicas. Exige um sufocamento financeiro eficaz, inteligência integrada, desarticulação logística, rigor penal consistente e continuidade estratégica por parte dos Estados.

O verdadeiro desafio, portanto, é desmantelar as estruturas que garantem a sobrevivência dessas redes, grupos e organizações delinquentes, cada vez mais insurgentes, infiltrados no Estado e em instituições socialmente dominantes.

Sobre os autores

Raquel Gallinati (Diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil e Mestre em Filosofia PUC/ SP)

Rodolfo Queiroz Laterza (presidente da Adepol do Brasil, Mestre em Segurança Pública)

DELEGADOS
Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

Secretário Chico Lucas diz que Lula colocou o combate ao feminicídio no centro do debate

A declaração ocorreu durante a cerimônia de lançamento do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio.

“Rezamos que o Senado aprove”, diz governador do PI sobre PEC da Segurança

(PI) Segundo o governador Rafael Fonteles, o Piauí registrou queda superior a 60% nos feminicídios no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.

Concurso Polícia Civil Bahia: Edital é publicado com 750 vagas

(BA) Governo da Bahia publica edital de concurso com 750 vagas para Polícia Civil; salários chegam a R$ 16,4 mil

Morre Carlos Tadeu, primeiro delegado com nanismo da polícia no ES 

(ES) A informação foi divulgada pelo delegado-geral da PCES, Jordano Bruno Gasperazzo

Não é o criminoso que mais mata policiais no Brasil. É o sistema

Delegada Raquel Gallinati trata do tema que repercute em todo o Brasil

O caráter permanente do crime de cessão de conta laranja

Por William Bretz

O Delegado de Polícia no microssistema de proteção digital das crianças e dos adolescentes

Por Francisco Enaldo Sales Campelo
Veja mais

Decreto 12.975/2026: o que muda na investigação criminal tecnológica

25JUL26 -(2)
Por Daniel Godoy Danesi

Criança surpreende ao dar presente a delegado durante prisão do tio

25JUL26 -
(GO) Segundo o delegado, a criança vive no lote em que mora o tio e ficou rodeando a equipe policial durante a prisão. O tio foi preso suspeito de perseguição,

Policiais morrem mais por suicídio do que em confrontos

24JUL26 -
(MG) Suicídios entre policiais superam mortes em confrontos e crescem 40%

Rafael Fonteles fala sobre anuário da segurança e aponta avanço no Piauí

Governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT)
Piauí é o estado menos violento de toda a Região Nordeste

Piauí é o estado menos violento da Região Nordeste

23JUL26 -(1)
(PI) Governador Rafael Fonteles fala sobre anuário da segurança e aponta avanço no Piauí

A exigência do contraditório e da ampla defesa no inquérito policial

22JUL26 -(3)
Por Rafael Francisco Marcondes de Moraes e Francisco Sannini

Delegado Michel Sampaio rebate acusação de perseguição e aponta retaliação de servidora

Delegado Michel Sampaio (PCMA)
(MA) Michel Sampaio formalizou uma representação criminal junto à Corregedoria Geral da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, apontando possíveis crimes de abandono de função, peculato-desvio e fraude processual
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.