Nunca pensei em ser Delegado de Polícia, mas hoje não troco minha carreira por nada!

Por Francisco Sannini Neto Francisco Sannini Neto (imagem) Sempre tive a convicção de que o Curso de Direito é, sem dúvida, aquele que mais te dá opções nas carreiras públicas. Quando estava no meu quarto ano de faculdade uma professora muito especial me chamou de canto e passou a relatar as vantagens do funcionalismo […]

Por Editoria Delegados

Por Francisco Sannini Neto

Francisco Sannini Neto (imagem)

 

Sempre tive a convicção de que o Curso de Direito é, sem dúvida, aquele que mais te dá opções nas carreiras públicas. Quando estava no meu quarto ano de faculdade uma professora muito especial me chamou de canto e passou a relatar as vantagens do funcionalismo público.

 

Foi nesse instante que se iniciou minha trajetória como concursando, sendo certo que nessa época eu nem sabia qual carreira seguiria. Aliás, essa é exatamente a minha primeira dica: nunca feche portas, pois a felicidade pode estar onde você menos imagina. Por isso, não foque em apenas um concurso específico!

 

Quando optei por seguir as carreiras públicas, minha primeira atitude foi procurar um Curso Preparatório. Destaco, todavia, que é possível ser aprovado estudando sozinho, mas não tenho dúvidas de que seu caminho será um pouco mais longo e penoso.

 

Nessa época de preparação o “concurseiro” tem que abrir mão de muitas coisas. Disciplina e resiliência são as palavras-chave para o sucesso. Eu estudava, no mínimo, oito horas por dia, dividindo meus horários em no máximo duas horas e sempre separando as matérias de maior incidência em concursos públicos.

 

Diferentemente de outros “concurseiros”, eu sempre prezei por relaxar aos finais de semana. O descanso e a descontração são essenciais para que o candidato mantenha o foco e o ritmo intenso nos estudos.

 

A aprovação não é uma corrida de velocidade, mas uma prova de resistência. Assim, é importante dosar seu estudo de maneira inteligente, pois não adianta acelerar demais no início para desistir pouco tempo depois.

 

O período de estudo é extremamente desgastante e regado de inseguranças e cobranças de todos os lados, sobretudo de você mesmo. Não desanime diante do fracasso e saiba que as derrotas são essenciais para alcançar o seu objetivo.

 

Lembro-me bem da desconfiança dos amigos e parentes, das críticas e até do menosprezo de alguns.

 

Chamavam-me de “vagabundo” por “só estudar”, diziam que eu deveria desistir e arrumar um trabalho de verdade, enfim, nessa época eram poucas palavras de incentivo.

 

Mas eu não desisti e, após um ano e meio de estudos, consegui ser aprovado no concurso para Delegado de Polícia do Estado de São Paulo. Como disse acima, eu nunca pensei em me tornar Delegado de Polícia, mas hoje não troco minha carreira por nenhuma outra! Por isso, reitero, nunca feche portas!

 

O meu início no cargo não foi muito diferente do meu tempo de “concurseiro”. No princípio ainda pensava em prestar outros concursos, mas logo me apaixonei pela carreira, que é jurídica, mas qualificada pela atividade policial. O Delegado de Polícia vive e sente o gosto de promover a justiça!

 

O dinamismo do cargo encanta qualquer pessoa, pois em um dia estamos dentro de uma Delegacia de Polícia presidindo investigações criminais, ofertando representações ao Poder Judiciário, enfim, aplicando as leis aos casos concretos, mas em outro momento estamos nas ruas cumprindo mandados de busca e apreensão, efetuando prisões ou outras diligências de cunho eminentemente policial.

 

Ser Delegado de Polícia é ser o primeiro “juiz da causa”, primeira autoridade estatal a dar um contorno jurídico-penal para fatos aparentemente delituosos; é assegurar direitos, seja da sociedade ou do próprio criminoso.

 

Ser Delegado de Polícia é saber que não se faz justiça de qualquer jeito, é reunir provas e elementos de informações acerca do crime dentro dos limites legais; é fazer cumprir a lei, mesmo que, não raro, você não concorde com ela ou não a considere justa, afinal, somos aplicadores da lei e não os seus criadores.

 

Ser Delegado de Polícia é trabalhar muitas vezes sem a estrutura adequada, sem o material humano adequado, sem o salário adequado e, ainda assim, mesmo diante de todas as adversidades, promover justiça.

 

Ser Delegado de Polícia é conhecer o garantismo penal na prática, o que é muito diferente da teoria. É muito fácil defender o garantismo do interior de gabinetes ou escritórios. Agora, garantir os direitos de um preso sujo, fedido e bêbado, às 04:00 horas da manhã de um sábado, com ele ofendendo até a sua quinta geração, é missão para poucos!

 

O Delegado de Polícia cria inimigos e inimizades apenas por exercer sua função e cumprir a lei.

 

Você será criticado, despertará o ódio de algumas pessoas, mas dormirá com sua cabeça tranquila e com a consciência do dever cumprido. Afinal, o mundo dá voltas e as mesmas pessoas que te criticam, um dia vão te agradecer, pois elas também podem ser vítimas de crime.

 

Durante a minha carreira como Delegado de Polícia eu pude testemunhar o lado mais sombrio do ser humano, mas também já me surpreendi e até me emocionei com a história de criminosos.

 

Em determinada ocasião cheguei a pagar a fiança de uma pessoa que, de acordo com o meu critério de justiça, não merecia ficar presa. Muitas vezes vi marido e mulher chegando na Delegacia se odiando e indo embora de mãos dadas.

 

Uma das minhas maiores alegrias no cargo foi, sem dúvida, poder devolver uma criança sequestrada para os braços de seus pais. Isso, meus amigos, acreditem, é um privilégio de poucos!

 

Por outro lado, já me entristeci demais com a dor que o crime causa às vítimas. Jamais me esquecerei de uma senhora que perdeu o marido e o filho na mesma ocasião. O marido pescava em uma região rural quando sofreu um mal súbito e caiu com a cabeça em uma enxada.

 

O filho, preocupado com o sumiço do pai, foi até o local em que ele costumava pescar, se desesperou ao encontrá-lo desacordado e, ao voltar para buscar ajuda, acabou sofrendo um acidente de carro e também faleceu.

 

Um abraço apertado foi tudo que eu pude oferecer aquela mãe! Muito embora não tenha havido crime nesse caso, foi uma ocorrência muito triste de presidir.

 

Em conclusão, deixo uma mensagem para todos que almejam a carreira policial. Primeiramente, saibam que se trata de uma carreira diferente de todas as outras, pois não temos horário de trabalho definido, não temos uma rotina determinada e mesmo quando estamos de folga nos sentimos no dever de colaborar com a Justiça.

 

Por tudo isso, o concursando que almeja uma carreira nas Polícias Judiciárias deve ser vocacionado. Costumo dizer que o sistema de concursos públicos no Brasil tem um problema sério, pois atrai pessoas que, na maioria das vezes, não se identificam com o cargo e apenas se interessam pelo dinheiro e pela estabilidade.

 

O policial, entretanto, não pode ser um “aventureiro concursal”! Quem não tem vocação não consegue ficar nem seis meses no cargo. Agora, quem gosta e se identifica com as funções, com certeza encontrará a felicidade.

 

Só lamento o amadorismo com que o tema “Segurança Pública” é tratado no Brasil, sendo que isso reflete diretamente na atividade de Polícia Judiciária. Na maioria dos Estados falta estrutura, faltam policiais e, sobretudo, falta um salário compatível com as responsabilidades do cargo.

 

É preciso que nossos governantes percebam a necessidade de se investir na investigação criminal, pois mais importante do que a severidade da pena é a certeza da punição, o que só é assegurado por uma Polícia Judiciária bem remunerada e bem estruturada.

 

SINDPESP

 

Sobre o autor

Por Francisco Sannini Neto é delegado de Polícia Civil no Estado de São Paulo

DELEGADOS.com.br
Revista da Defesa Social & Portal Nacional dos Delegados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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