‘Delegado não vai ter hora de dormir’, diz secretário de Polícia Civil do RJ

RJ: Marcus Vinícius de Almeida Braga é o novo secretário de Polícia Civil Marcus Vinícius de Almeida Braga é o novo secretário de Polícia Civil Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo Primeiro secretário de Polícia Civil desde 1995, quando a pasta deixou de existir para a criação da Secretaria estadual de Segurança, agora extinta, […]

Por Editoria Delegados

RJ: Marcus Vinícius de Almeida Braga é o novo secretário de Polícia Civil

Marcus Vinícius de Almeida Braga é o novo secretário de Polícia Civil Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Primeiro secretário de Polícia Civil desde 1995, quando a pasta deixou de existir para a criação da Secretaria estadual de Segurança, agora extinta, o delegado Marcus Vinícius Braga, de 47 anos, 17 deles na corporação, montou uma estrutura em que uma das prioridades será o aumento de produtividade da polícia. Engessado por um Plano de Recuperação Fiscal, que prevê regras rigorosas para se realizar concursos públicos, ele já criou a Controladoria Geral de Polícia para medir o índice de elucidação de crimes. E ameaça: “Se em três meses o delegado não produzir o esperado, perderá a titularidade da unidade sumariamente”.

Qual o déficit hoje de policiais civis? Está previsto algum concurso público para preencher as vagas?

Pela lei, precisaríamos de 22 mil agentes. Temos hoje 8,5 mil, sendo que, deste total, 30% estão prestes a se aposentar. A carência de recursos humanos é impressionante. Há um déficit de, no mínimo, 150 delegados. O governador está ciente do problema, mas não podemos nos esquecer de que estamos sob o regime de um Plano de Recuperação Fiscal. Só posso fazer concurso para 16 delegados, pois este foi o número de policiais que se aposentaram desde que a medida teve início.

O senhor anunciou a inauguração de delegacias de homicídios em Macaé e em Volta Redonda. Como fazer isso sem agentes?

Tive que fazer uma reengenharia administrativa para realocar pessoal. Além disso, 225 policiais, formados no concurso de 2014, estão entrando para a corporação esta semana. Para criar as novas delegacias, usaremos os novos agentes. Outra parte irá para o Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP). Vou reforçar o núcleo que investiga mortes de policiais e estender o serviço para Baixada e Niterói.

Como reverter os baixos índices de elucidação dos crimes?

O nosso índice de elucidação de crimes aumentou 115% no ano passado em relação a 2017. O resultado das investigações é o indiciamento. Estamos criando a Controladoria Geral de Polícia que fará a auditagem para saber os indiciamentos feitos pelos delegados. A controladoria vai analisar os contratos das licitações, a qualidade dos registros de ocorrência e a produtividade. A ideia é cobrar o produto final dos policiais. Serão emitidos relatórios mensais. Se, em três meses, o delegado não produzir o esperado, perderá a titularidade da unidade sumariamente.

No dia 14 (amanhã), serão 10 meses do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. O crime está perto de ser esclarecido?

Confio muito no Antônio Ricardo (diretor do DGHPP), que tem muita experiência em investigar homicídios e acompanhará o trabalho do Giniton (Lages, responsável pelo inquérito). Ricardo me disse que está bem avançado. Ele será os meus olhos no inquérito da Marielle. Não tenho dúvidas de que vamos chegar aos assassinos o quanto antes, porque a sociedade merece uma resposta. O homicídio dela não é comum. Foi bem planejado. Quando alguém mata Marielle, mata a sociedade. É a mesma analogia que faço para as mortes de policiais, pois é a sociedade quem está sendo atacada.

O principal suspeito do assassinato de Marielle e Anderson, Orlando da Curicica, disse ao MPF que integrantes da Delegacia de Homicídios recebiam mesada para não elucidar crimes da contravenção. O que o senhor sabe sobre a denúncia?

Como não tenho acesso à investigação da Polícia Federal, responsável pelo caso, não tenho o que falar. A Polícia Civil continuará a fazer o seu trabalho, que é investigar.

Como será a atuação da Polícia Civil contra as milícias?

Tanto milicianos quanto traficantes são criminosos. Tráfico hoje explora “gatonet” e transporte ilegal e a milícia vende drogas. A Delegacia de Combate às Drogas (DCOD) atuará contra o tráfico e a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) atacará as milícias. A Draco volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Hoje, sabemos que o principal negócio dos milicianos é a exploração de terras. Vamos rastrear seus bens e investigar como lavam o dinheiro sujo deles.

Como será o combate à lavagem de dinheiro?

O delegado da DCOD, por exemplo, pode entender que algum traficante esteja lavando dinheiro, por ter muitos bens em nome de laranjas. Antes, a delegacia, com a falta de pessoal, tinha que apurar este crime. Agora, passará essa parte da investigação para o setor de lavagem, que irá processar os dados junto com órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Ao final, será entregue o resultado à delegacia responsável pelo caso.

Mas já não existia um laboratório de lavagem?

Sim, mas não tinha pessoal suficiente. Na nova estrutura da secretaria, ele foi reforçado e criamos o Departamento Geral de Investigação, Corrupção, Crime Organizado/Lavagem de Dinheiro. O governador Wilson Witzel, por ter sido juiz federal e acompanhar essa mudança de cultura da Lava-Jato de seguir o dinheiro, determinou que priorizássemos o crime de lavagem de dinheiro. A gente fazia as prisões, mas não se atingia a parte financeira das organizações criminosas. A ideia é usar o dinheiro recuperado dessas transações ilegais em melhorias para a própria corporação. Outra novidade é que, através do convênio da Polícia Civil com o Ministério Público, teremos um núcleo para investigar crimes praticados por pessoas com prerrogativa de foro.

Com a intervenção federal, alguns crimes caíram. Como pretende manter os resultados após a operação?

Montamos uma força-tarefa formada por delegados de primeira, mais experientes, para reforçar o Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa . Outros delitos que merecem uma atenção especial são: os roubos de carros e de cargas. Desde 2015, só o Detran pode fiscalizar os ferros-velhos. Pedi ao governador para rever isso, pois os ferros-velhos compram peças de desmanches de carros roubados. Em relação à carga, quando o índice aumenta, afugenta investidores para o estado. Estamos trabalhando em conjunto com a Polícia Militar. Quanto ao tráfico de armas, vamos estabelecer parceiras com delegacias de outros estados e faremos convênios com unidades de outros países.

Como será o combate à corrupção policial?

Os policiais com desvio de conduta serão extirpados da instituição.

O que o senhor espera do seu policial?

Os delegados operacionais terão que aprender a trabalhar comigo. Eles não vão ter hora mais para dormir. Vim da área operacional. Se você cochilar, morre. Já atuei em pelo menos 1.500 operações em comunidade. Aprendi a viver intensamente a polícia. O policial do Rio não pode ser de nível médio, tem que ser policial 24 horas e amar o que faz. Eu tenho a polícia dentro de mim. Já fiquei em situações que não sei como saí vivo. Irei para o front junto com meus agentes.

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