Delegado de Guarulhos transforma boletim de ocorrência em crônica

SP: Policial diz que adota narrativa diferente em casos que chamam a atenção “Ela, a vítima, apressou o passo. Antes de os alcançarem, os roubadores tiravam tempo hábil de despossuir uma outra passante que, por desdita, por ali também se encontrava. Em seguida, sequiosos, foram em direção da vítima. Alcançaram-na. Deram voz de assalto.” A […]

Por Editoria Delegados

SP: Policial diz que adota narrativa diferente em casos que chamam a atenção

“Ela, a vítima, apressou o passo. Antes de os alcançarem, os roubadores tiravam tempo hábil de despossuir uma outra passante que, por desdita, por ali também se encontrava. Em seguida, sequiosos, foram em direção da vítima. Alcançaram-na. Deram voz de assalto.”

A narrativa lembra literatura policial, mas se trata do trecho de um boletim de ocorrência escrito pelo delegado João Batista Pires Blasi, 41. Sempre que está à frente de algum caso que lhe chama a atenção, o delegado exercita sua verve literária na maneira de descrever o crime.

O crime relatado acima aconteceu no dia 1º, no bairro dos Pimentas, em Guarulhos (Grande SP), e inspirou o delegado a escrever devido ao seu fim surpreendente.

“Quando se pega um caso que por uma razão ou outra me parece inusitado ou que tenha alguma particularidade, eu gosto de fazer uma coisa mais elaborada. Como nesse do indivíduo que, para se desvencilhar dos roubadores, ele transpôs um muro e, uma vez que o fez, foi surpreendido por dois cachorros de uma raça poderosa”, afirmou Blasi, com um vocabulário que lembra o do boletim.

A vítima acabou tendo o braço quebrado por dois rottweilers, mas apenas o crachá da empresa em que trabalha foi levado pelos ladrões. Trecho que Blasi narra da seguinte maneira: “Pois já no interior do terreno abrangido pelo muro, viu-se às voltas com duas outras bestas-feras. Não eram ladrões. Não eram humanos. Eram dois cães enormes”.

A prosa de Blasi passou despercebida à vítima, um rapaz de 20 anos. “Li, assim, por acima na hora. Não cheguei a prestar muita atenção. Só entreguei na firma”, disse o jovem à Folha. Os bandidos fugiram.

No meio policial, os boletins do delegado Blasi já chegaram a ‘viralizar’ há alguns anos. O BO que ficou mais famoso começava da seguinte maneira: “Hoje, num dia aparentemente modorrento, fomos agraciados com a visita de uma figura não menos que ilustre. Há tempos, ele por aqui não aparecia. Decerto, estava envolto na batalha inclemente que trava diuturnamente nestas plagas, que só não são mais inóspitas por conta de sua sanha irrefreável de combater a criminalidade que, por vezes, aqui pretende, mas não consegue grassar. Pois bem, sabidamente este valoroso miliciano – relevem o clichê – dispensa comentários. Sim, é ele. O valoroso e intrépido paladino Cb Veron”.

​Blasi afirma este foi um dos primeiros boletins que escreveu neste estilo, usado com parcimônia. “Se, eventualmente, isso fosse feito de modo reiterado, perderia esse fator do inusitado”, diz.

O policial ressalta que, apesar das diferenças em relação aos boletins tradicionais, busca sempre tratar as vítimas com o máximo de respeito. “A despeito de ser lavrado numa linguagem inusual, sempre foi lavrado com toda a seriedade”.

Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), delegados têm liberdade de estilo, desde que os fatos narrados constem no histórico do boletim.

Questionado pela reportagem se nunca pensou em escrever um livro, Blasi cogita, um dia, fazer uma coletânea dos boletins de ocorrência. No entanto, diz que, na literatura, prefere ser um leitor. “A máxima que mais me persuade é uma do Nelson Rodrigues. A arte da leitura é a releitura”, diz.

Um dos escritores prediletos de Blasi, Graciliano Ramos, também mostrava muito do seu estilo em documentos oficiais, quando foi prefeito da pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Os relatórios de gestão publicados por ele no Diário Oficial foram classificados como a primeira expressão de seu talento literário, nos anos de 1929 e 1930, época em que era escritor inédito –Vidas Secas só seria publicado em 1938.

Além de Graciliano, que Blasi anda relendo, diz ter Nelson Rodrigues como um dos prediletos. “Na parte da crônica, acho ele um dos grandes. Ele tinha uma fluidez, um encaminhamento do texto, que é sempre um prazer”, diz. Também cita o cubano Pedro Juan Gutiérrez, que retrata personagens marginais em uma Havana decadente –o mais famoso é Trilogia da Havana Suja.

Confira abaixo a íntegra de um boletim escrito pelo delegado João Blasi:

Comparece a esta distrital a vítima acima qualificada dando-nos conta de que, antes mesmo do romper crepuscular, já palmilhava pela via supra. Como sói costuma, diuturnamente, fazer, dirigia-se ao ponto de ônibus. Ônibus fretado, que o levaria a sua faina diária.

Pois então, o ponto já se avizinhava. Eis senão quando, dois indivíduos, numa moto, dela se abeiraram. Ela já anteviu. Estava em palpos de aranha. Dito feito, a aludida moto passou por ele e, mais à frente, fez o retorno. Ela, a vítima, apressou o passo. Antes de os alcançarem, os roubadores tiravam tempo hábil de despossuir uma outra passante que, por desdita, por ali também se encontrava. Em seguida, sequiosos, foram em direção da vítima. Alcançaram-na. Deram voz de assalto. Faziam menção de estar armados. O garupa desceu e vociferou: — “passa o celular”. A vítima não aquiesceu. Não entregou o aparelho. Vendo-a recalcitrante, o piloto da moto também desceu. Engalfinharam-se todos. Num dado momento, a vítima conseguiu desvencilhar-se deles. Foi um breve fôlego. Ela divisou um muro, e disse de si para si — “vou pulá-lo e fugir desses ‘malas’”. Era a sorte que lhe sorria. Ou não. Pois já no interior do terreno abrangido pelo muro, viu-se às voltas com duas outras bestas-feras. Não eram ladrões. Não eram humanos. Eram dois cães enormes. Da raça rottweiler. Bom, os animais, ante aquela invasão súbita ao território por eles guarnecido, precipitaram-se na direção da ora vítima. Jogaram-na no chão. A vítima, por mais que tentasse, não conseguiu escapar dos animais. Ensaiou ainda levantar-se, mas os animais a derrubavam no chão. Num dado momento, já exangue e sem ânimo para prosseguir na refrega, alvíssaras, um homem apareceu. Empertigou-se no muro, e começou a chamar os cães, distraindo-os, chamando-os. Esse bom samaritano foi para o outro lado do muro e começou a brandir um saco de lixo. Os animais então foram na direção dele. A vítima, malgrado malferida e em pânico, nesse ensejo, conseguiu sair do terreno.

Sumamente, a ferocidade do ataque dos canídeos culminou no braço direito da vítima quebrado.

Os ladrões levaram apenas o crachá da vítima.

Ela não conseguiu ver a placa das motos. Era uma 125, vermelha e preta.

Orientada a comparecer no setor de investigação dessa distrital, ela não sabe dizer se havia câmera pelo local.

UOL

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