Titular da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Hortolândia, a delegada Alline Kruetzmann Abdo Vicentim foi atacada na última semana pelo influenciador e candidato a deputado Federal Guilherme Pallesi, mais conhecido como Guipa (MDB).
Os ataques motivaram uma nota de repúdio às afirmações do candidato e em defesa da delegada, emitida pelo Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) na sexta-feira (21).
Cárcere privado com pit bull motivou a visita
O ataque aconteceu por ela ter, supostamente, se recusado a gravar um vídeo para as redes sociais do candidato sobre o caso da mulher mantida em cárcere privado com o uso de uma cachorra da raça pit bull.
O cárcere privado aconteceu no último dia 15, na residência da vítima, na Rua Geraldo Teixeira Lopes, no Jardim Campos Verdes. A mulher foi resgatada pela Polícia Militar.
No entanto, a investigação é conduzida pela Delegacia do Município de Hortolândia – e não pela DDM, porque a ocorrência não caracterizava um caso de violência doméstica ou familiar.
Entenda o caso em detalhes

Em seu vídeo, postado na quinta-feira (20), o candidato afirma que a delegada teria se recusado a gravar com ele.
“É complicado. A gente está falando de uma delegada que não quis falar a respeito de um caso onde um homem mantida uma mulher em cárcere privado sob o olhar de um pit bull, ou seja, a mulher (delegada) podia ter tido a oportunidade de falar a respeito, pra gente saber um pouco mais sobre a situação de Hortolândia e tentar auxiliar, mas ela (a delegada) não quis compartilhar o caso”, fala o candidato.
Guipa prossegue, agora com um ataque direto à profissional. “Sabe o que me deixa louco, família? Que eu percebo cada dia mais que a maior rival da mulher é a própria mulher. Tem muita mulher que joga contra, tá ligado? (…) Simplesmente a delegada disse que não ia falar com nenhuma emissora. Deixei claro que não era de nenhuma emissora, que o trabalho era sério, (de um) candidato. Mas (ela) falou que não ia falar. Eu acredito que não teria problema nenhum ela falar, ainda mais sendo uma delegada. (…) Mas, enfim, cada um dá o que tem, né?”, conclui o candidato em seu vídeo.
Nota de Repúdio do SINDPESP
“O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), entidade representativa dos delegados e das delegadas de Polícia paulistas e atuante na defesa dos direitos e das prerrogativas da categoria, manifesta total repúdio ao vídeo publicado em rede social, em 20/8 (quinta-feira), pelo candidato a deputado federal Guilherme Pallesi, o Guipa (MDB-SP).
De caráter indiscutivelmente sensacionalista, o conteúdo desmerece e busca desqualificar a atuação séria e profissional da delegada de Polícia de Hortolândia-SP – tudo porque, segundo afirma o emedebista, a profissional (em obediência aos ritos inerentes à função) – se recusou a conceder entrevista para suas redes sociais sobre inquérito policial em andamento.
Espera-se que o candidato a deputado federal – que diz defender a pauta das mulheres – compreenda a importância e o regramento que balizam o trabalho das delegadas de Polícia de todo o estado bandeirante. Estamos falando de profissionais que, diariamente, lutam pela igualdade de direitos e pelo respeito à condição feminina, por meio da responsabilização legal de agressores e de responsáveis por demais delitos.
Infelizmente, durante o período eleitoral, muitos postulantes a mandatos públicos têm utilizado as Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) em todo o estado como palanques eleitorais – condição que o Sindpesp, aliás, rechaça, veementemente.
A lei federal 9.504/97 (Lei das Eleições) proíbe, inclusive, a utilização da máquina pública para a promoção de qualquer candidato, especialmente em períodos eleitorais. Além disso, a lei federal 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) e o Código de Processo Penal garantem, expressamente, o sigilo do inquérito policial e dos dados relacionados a vítimas.
Ademais, segundo a normatização do Governo de São Paulo – especificamente o artigo 21 do decreto 69.557/2025 – delegados de Polícia na ativa somente podem conceder entrevistas à Imprensa mediante autorização da Secretaria de Estado de Segurança Pública. A requisição para tal deve ser feita por escrito, para deferimento ou não.
O Sindpesp reconhece que o candidato a deputado federal tem rede social robusta, abarcando mais de 1 milhão de seguidores – sendo, desta maneira, de alcance incalculável.
Não podemos, assim, nos esquecer que, embora não sejam formalmente consideradas veículos de Comunicação no sentido tradicional, as redes sociais desempenham papel crucial na disseminação de informações (e de desinformações), o que pode acarretar responsabilidades jurídicas sérias, inclusive no âmbito eleitoral.
Por fim, esta entidade de classe lamenta profundamente a declaração do político ao afirmar que “*a maior rival da mulher é a própria mulher! Tem muita mulher que joga contra!”,* referindo-se a uma delegada que atua, há anos, na defesa dos direitos das mulheres, colocando a própria vida em risco, diariamente – e isso, não apenas quando a profissional está sob as lentes de uma câmera.
Dito isso, o Sindpesp espera pela retratação do candidato diante da conduta adotada e das declarações descabidas e desrespeitosas dirigidas à delegada de Polícia. Tal comportamento, inclusive, não se mostra compatível nem com a postura esperada de alguém que pretende exercer um mandato parlamentar, nem com a de um cidadão que se apresenta para a sociedade como defensor do público feminino.
A igualdade de gênero não pode se limitar ao discurso ou à exposição nas redes sociais; deve se revelar, sobretudo, em atitudes concretas, coerentes e respeitosas, inclusive quando a mulher em questão é uma agente pública que, no legítimo exercício de suas funções laborais, atua cotidianamente na proteção de outras mulheres.”
Jacqueline Valadares – Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp)
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