Ataques de policiais a delegacias expõem necessidade de apoio de psicólogos, dizem especialistas

Seis policiais morreram a tiros por colegas de farda em horário de trabalho em ataques ocorridos no Ceará e em São Paulo Os ataques a tiros feitos por policiais a delegacias nos últimos dias, um no Ceará e outro no interior de São Paulo, tiraram a vida de seis colegas de profissão dos agentes. As […]

Por Editoria Delegados

Seis policiais morreram a tiros por colegas de farda em horário de trabalho em ataques ocorridos no Ceará e em São Paulo

Os ataques a tiros feitos por policiais a delegacias nos últimos dias, um no Ceará e outro no interior de São Paulo, tiraram a vida de seis colegas de profissão dos agentes. As ações violentas reforçam a necessidade de programas eficientes que auxiliem os policiais no país com atendimento psicológico, segundo especialistas ouvidos pelo R7.

“Eles estão em 100% das vezes em um ambiente de extrema pressão, onde qualquer deslize pode significar a perda da sua vida ou a de um colega. Além de não terem recursos necessários, passam por diversas situações traumáticas e sem qualquer suporte emocional”, ponderou a psicóloga Adriana Severino.

A motivação do ataque a uma delegacia de Salto, no interior de São Paulo, na segunda-feira (15), que resultou na morte de dois policiais militares, teria sido divergência em relação à escala de trabalho.

“As pessoas responsáveis por prezar pela vida e segurança da população estão se atacando ou atentando contra a própria vida devido ao estresse e à pressão que sofrem”, afirma Adriana Severino. Os possíveis sintomas, segundo a psicóloga, são:

• Senso de vigilância ou hiper vigilância;

• Dificuldade de foco, concentração e sono;

• Tendência a serem mais violentos;

• Descontrole emocional, com dificuldades para controlar impulsos;

• Estresse pós-traumático;

• Depressão profunda.

Preconceito ao procurar ajuda

Em entrevista ao R7, a diretora da Adepol (Associação de Delegados da Polícia) Brasil, Raquel Gallinati, ressaltou um tema importante, mas pouco falado: o preconceito que os policiais vivem ao procurar ajuda. Comentários como “terapia é coisa de gente doida”, “é frescura” ou “é dinheiro jogado fora” ainda surgem, ainda mais para pessoas vistas, muitas das vezes, como heróis.

“É importante que as instituições policiais combatam o preconceito com saúde mental para que os agentes se sintam confortáveis em buscar ajuda quando necessário”, pontua. Para a delegada, os órgãos governamentais devem investir em programas de prevenção e tratamento psicológico, assim como fornecer treinamentos para lidar com situações de estresse.

Gallinati ainda ressalta que, além das situações de risco cotidianas, há também a questão de que nem sempre as condições de trabalho da categoria são justas.

A delegada ressalta que os agentes trabalham arriscando as próprias vidas e têm famílias. “Esse tema precisa ser debatido para que pais, esposas, filhos e amigos não chorem mais com a perda de seus entes queridos, sufocados e tendo que combater de frente as mazelas da sociedade todos os dias”.

O também psicólogo Leandro de Jesus fala sobre a urgência de elaborar estratégias de fomento à saúde mental “daqueles que se preparam para a difícil missão de cuidar da segurança pública”. Para ele, o acompanhamento deve ser desde a preparação para se tornar um policial até efetivamente ser um, porque os traumas sofridos são inúmeros e necessitam ser tratados.

“O fenômeno imitação”

Nas entrevistas ao R7, os especialistas abordaram o fenômeno “imitação”. O primeiro caso, no Ceará, quando um policial matou quatro colegas, ocorreu na madrugada de domingo (14). Na manhã de segunda-feira (15), um sargento fez o mesmo e matou dois policiais militares. Esse tipo de comportamento também foi bastante debatido na onda recente de ataques a escolas.

Para a psicóloga Adriana Severino, o fenômeno pode ocorrer em qualquer categoria, “mas é importante ressaltar que cada indivíduo é responsável por seus atos. E que a maioria dos policiais atua de forma profissional e ética, mas um apoio psicológico pode auxiliá-los a lidar melhor com certas situações”.

O que dizem os órgãos públicos?

No início deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou, com alguns vetos, a lei nº 14.531, que trata de ações contra o suicídio e automutilação de profissionais de segurança pública. A lei visa a produção de dados sobre a qualidade de vida e saúde dos agentes, quantos são afetados pessoalmente pelo trabalho, quantos possuem transtornos mentais e comportamentos suicida dos profissionais. O objetivo é criar ações que auxiliem os policiais nesses cuidados.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), as polícias do estado oferecem suporte e atendimento psicológico aos seus agentes por meio dos seguintes programas:

• Sistema de Saúde Mental da PM;

• Caps (Centro de Atenção Psicológica e Social);

• Naps (Núcleo de Atenção Psicossocial);

• Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, que conta com psicólogos na academia de polícia.

A Secretaria de Segurança Pública do Ceará também informou que a Polícia Civil disponibiliza o Departamento de Assistência Médica e Psicossocial, que presta assistência médica e psicossocial a todos os policiais civis e colaboradores da instituição, por meio de um trabalho educativo, preventivo e terapêutico.

O setor, que possui 50 anos de criação, é composto por 14 profissionais da área da saúde – médicos, psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais e funciona com atendimento individual e plantão psicológico, atendimento social, atendimento psiquiátrico, acompanhamento com educadores físicos, além de realizar um trabalho preventivo com palestras e intervenções em grupo.

 

R7

 

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