A saúde mental dos policiais: ferida aberta para ser debatida e cicatrizada no Brasil

Por Raquel Gallinati Por Raquel Gallinati (imagem) A saúde mental dos policiais é uma questão preocupante e complexa que afeta, não de hoje, os integrantes de todas as Forças de Segurança do País. A função policial, por si só, potencializa o estresse, o que pode resultar em problemas graves, como a depressão, só para citar […]

Por Editoria Delegados

Por Raquel Gallinati

Por Raquel Gallinati (imagem)

A saúde mental dos policiais é uma questão preocupante e complexa que afeta, não de hoje, os integrantes de todas as Forças de Segurança do País. A função policial, por si só, potencializa o estresse, o que pode resultar em problemas graves, como a depressão, só para citar uma das possibilidades, uma vez que a natureza deste trabalho também desencadeia ansiedade, transtorno pós-traumático, burnout e ataques de fúria com revanchismo, como ocorreu numa delegacia do Ceará no último fim de semana, e nesta 2ª feira (15/5) num Batalhão da Polícia Militar (PM) no estado de São Paulo.

Por volta das 9 horas de hoje, um sargento, de porte de um fuzil, invadiu a 3ª Companhia de Salto e atirou contra um sargento e um capitão – este comandante da PM na cidade. Os dois morreram. O atirador foi detido. Já na madrugada de sábado para domingo, um inspetor abriu fogo contra quatro colegas dentro da Delegacia Regional de Camocim. Foram assassinados três escrivães e um inspetor. O atirador se entregou momentos depois para a Polícia.

 

Além das causas inerentes à função do policial, fatores institucionais, como a ausência de suporte, assédio moral, abuso de poder e escalas abusivas – muitas vezes, para suprir o déficit absurdo de profissionais – também afetam negativamente a saúde mental dos policiais. Há, ainda, resistência – muitas vezes, velada, em admitir que são necessários afastamentos por motivos de saúde. Restando ao policial esgotado e pressionado deixar sua casa todos os dias para cumprir a missão, mas sem condições psíquicas para tal.

Uma Polícia doente também é resultado de conflitos familiares, de isolamento social, de introspecção exarcebada e, não menos importante, de problemas financeiros. Os que não podem mudar de profissão, resistem nas fileiras das instituições, mas infelizes, tristes e desgostosos com um futuro incerto e perigoso.

O preconceito em relação ao cuidado com a saúde mental também precisa ser combatidos, de dentro para fora e de fora para dentro, para que os policiais brasileiros busquem ajuda sem medo de serem estigmatizados, julgados ou ridicularizados por parentes, seus pares e pela própria sociedade. É necessário, afinal, que a população, assim como as instituições de Segurança Pública, reconheça o trabalho essencial e difícil dos policiais e, assim, garantir que tenham acesso a tratamento, caso necessário, sem embaraços.

Para se chegar ao que seria razoável, é necessário que o Estado invista em algumas frentes. Uma delas diz respeito a programas de prevenção e de acolhimento voltados à saúde mental, bem como fornecer treinamentos para o policial lidar melhor com situações de estresse. Nesta esteira de raciocínio, cabe, ainda, o oferecimento facilitado de suporte psicológico. É na terapia que o policial poderá conversar sobre seus problemas e receber auxílio adequado.

Instituições policiais devem trabalhar em parceria com outras organizações, como as da seara Social e de Saúde, para ofertar a sua equipe ampla opção de suporte.

E, por fim, o clamor de décadas: a promoção de um trabalho saudável e sem diferenciações. É o óbvio, mas deve ser lido, revisto e reiterado. As corporações precisam garantir condições salubres de trabalho, bem como remuneração justa e um ambiente seguro e saudável para os profissionais. Isso tudo pode contribuir na redução do estresse e dos conflitos no expediente, e melhorar a saúde mental dos policiais.

A saúde mental nas instituições policiais não pode ser tabu. É uma ferida aberta, necrosada, e que precisa entrar em debate. Somente assim, tragédias como as que lavou de sangue o chão de uma Delegacia do Ceará e um Batalhão em São Paulo não vão se repetir. Também é lamentável que famílias chorem a perda de seus entes queridos, sufocados, órfãos de afeto e de esperança.

Os heróis da vida real gritam por socorro abafados pela inércia dos poderes constituídos (que fingem não ver), enquanto combatem de frente as mazelas da sociedade todos os dias.

Sobre a autora

Raquel Gallinati é delegada de Polícia; mestre em Filosofia; pós-graduada em Ciências Penais, em Direito de Polícia Judiciária, e em Processo Penal; diretora da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) do Brasil; e embaixadora do Instituto Pró-Vítima.

 

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