A difícil harmonia doméstica em tempo de confinamento

Por Raquel Kobashi Gallinati Por Raquel Kobashi Gallinati Os brasileiros passaram pela primeira semana de confinamento forçado pela pandemia de coronavírus e, o que antes parecia para alguns uma medida de curto prazo, hoje, na maioria dos casos, deverá persistir por tempo indeterminado. Enquanto o isolamento social protege da contaminação, ele traz alguns efeitos colaterais […]

Por Editoria Delegados

Por Raquel Kobashi Gallinati

Por Raquel Kobashi Gallinati

Os brasileiros passaram pela primeira semana de confinamento forçado pela pandemia de coronavírus e, o que antes parecia para alguns uma medida de curto prazo, hoje, na maioria dos casos, deverá persistir por tempo indeterminado.

Enquanto o isolamento social protege da contaminação, ele traz alguns efeitos colaterais que precisam ser prevenidos. Com famílias inteiras trancadas 24 horas por dia em suas casas, o convívio forçado pode causar uma tensão que resulte em violência doméstica.

Na China, onde a pandemia começou, a violência dentro das casas triplicou, de acordo com a imprensa. Por lá, foi criada a hashtag #AntiDomesticViolenceDuringEpidemic, para que as vítimas pudessem denunciar.

A ONU fez esse alerta e França, Itália, Suíça e Portugal ampliaram a atenção sobre casos de violência.

No Brasil, o aumento de casos também foi sentido.

Segundo divulgado pela imprensa, Curitiba teve 217 registros de violência doméstica no primeiro final de semana da quarentena. No final de semana anterior, foram 189. O plantão judiciário do Rio teve 50% de aumento nos casos. O governo de Santa Catarina criou um whatsapp para denúncias.

No Brasil, onde a cada 2 minutos ocorre um caso e 69% deles são dentro da casa da vítima, é esperado o aumento da violência doméstica em função da quarentena.

A agressão depende do poder e do controle do agressor sobre a vítima. Quando as pessoas são confinadas e isoladas em um local por longos períodos, os abusadores encontram o ambiente propício para exercer seu poder de intimidação.

As mulheres também ficam privadas de muitas das suas estratégias diárias para fugir da relação abusiva, como o ambiente de trabalho e as redes de amigos e familiares. Presa em casa, suas possibilidades de socorro ficam limitadas.

Na população de poder aquisitivo mais baixo, onde o ambiente de confinamento é menor e em muitos casos há privação de bens de consumo, a tensão é agravada e pode resultar em agressão.

Situações banais do dia a dia, como a falta de paciência com crianças e a falta de espaço também elevam o estresse e podem acabar em violência, mesmo em famílias sem registros anteriores de agressão.

A Defensoria Pública do Estado do Mato Grosso criou a campanha Aqui não! Violência doméstica não entra na quarentena.

Em casa, a mulher não pode se sujeitar à violência por medo. É preciso pedir ajuda a vizinhos, amigos e familiares. O telefone 180 atende casos de violência contra a mulher. Quando se sentir em risco, interrompa a quarentena e vá a uma delegacia.

O Brasil teve 1314 casos de feminicídio em 2019. É dever de todos impedir que a mesma quarentena que vai salvar vidas da covid-19, resulte morte e violência contra as mulheres.

*Raquel Kobashi Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo

Estadão

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