Polícia do Japão usa tática sem dano para prender pessoas

Detem homem com movimentos de artes marciais. Conheça como funciona o policiamento do Japão Inernauta registra momento em que policiais japoneses detêm homem usando movimentos de artes marciais (Foto: Reprodução/Youtube) Um homem embriagado provoca um grupo de policiais nas ruas de Tóquio, no Japão. Os policiais reagem, usando estratégias de luta corporal e o envolvendo […]

Por Editoria Delegados

Detem homem com movimentos de artes marciais. Conheça como funciona o policiamento do Japão

Inernauta registra momento em que policiais japoneses detêm homem usando movimentos de artes marciais (Foto: Reprodução/Youtube)

Um homem embriagado provoca um grupo de policiais nas ruas de Tóquio, no Japão. Os policiais reagem, usando estratégias de luta corporal e o envolvendo em uma espécie de “cobertor” para levá-lo à delegacia.

O vídeo da abordagem “não-violenta” chama atenção pela calma dos agentes e a ausência do uso de armas de fogo. A técnica, que não é nova, se tornou um exemplo para corporações pelo mundo. De acordo com especialistas consultados pelo G1, ela é fruto de um sistema de valores que envolve a cultura do país e hoje se reflete em seus baixos índices de violência.

De acordo com o professor do Departamento de Justiça Criminal da Universidade Estadual de Nova York em Albany, David Bayley, o comportamento mais “humanizado” da polícia japonesa está relacionado ao “koban”, um sistema de policiamento comunitário.

A palavra se refere às pequenas estações policiais que compõem o sistema. Mas, na prática, ela vai muito além do significado literal, podendo ser explicada como uma filosofia que estabelece a ligação da polícia com a sociedade japonesa desde 1870.

“Os kobans são postos policiais colocados em pontos estratégicos das cidades. Nelas, os policiais são treinados para não apenas servirem a população em relação à segurança, mas também dando todo tipo de informação, fortalecendo um laço de confiança com as pessoas”, explica Bayley.

Ainda de acordo com ele, é comum esses policiais ligarem para a casa das pessoas da área do koban, “apenas para saber como elas estão ao menos duas vezes por ano”.

Agente da polícia japonesa demonstra método de abordagem a policiais brasileiros (Foto: Sandro Roberto Campos/Arquivo pessoal) 

Autor do livro “Força da Ordem”, que discute as práticas incorporadas pela polícia japonesa, Bayley enfatiza que a “obediência à autoridade” é algo enraizado na cultura dos japoneses, e a polícia se utiliza disso para conseguir “lealdade do público”. “Com isso, eles trabalham muito para evitar escândalos de corrupção que possam vir a manchar a imagem da corporação. Em troca, o público os respeita cada vez mais”, disse.

Em 2010, o agente do Departamento de Direitos Humanos da Polícia Militar do Espírito Santo, Sandro Roberto Campos, foi selecionado para participar de um treinamento com a polícia japonesa em Tóquio, onde foi introduzido às práticas do koban.

Por duas semanas, ele se uniu a um grupo de policiais brasileiros para assistir a palestras e acompanhar os policiais japoneses pelas ruas de Tóquio. Durante o treinamento, aprendeu métodos de abordagem e de policiamento japoneses.

“Eles utilizam muito o kendô, que são práticas de artes marciais. Inclusive, como grande parte das armas utilizadas por criminosos são brancas (como facas, por exemplo), os coletes dos policiais são à prova desse tipo de arma”, disse.

Além disso, segundo Campos, os policiais fazem uso de uma “rede” ou “cobertores” para envolver indivíduos que estejam alterados, como aparece no vídeo citado acima.

Outro método encontrado pela polícia para punir crimes considerados “pequenos”, segundo Bayley, é levar os criminosos às kobans “e fazê-los assinar um pedido formal de desculpa à sociedade, comprometendo-se a devolver eventuais prejuízos à comunidade”, explica.

Grande parte dessas táticas, na visão de Campos, ainda não são “viáveis” para serem importadas ao Brasil por conta da grande diferença social dos dois países. Mesmo assim, alguns estados, como o Espírito Santo, tentam se inspirar nessas práticas para guiar suas corporações.

Segundo Lim Hyeyoung , professora da Universidade do Alabama em Birmingham, nos EUA, “os japoneses consideram a desobediência à lei como algo vergonhoso. Os próprios cidadãos têm uma política de policiamento de seus atos e da comunidade muito enraizado”, disse.

A prática vem surtindo efeito. O Japão hoje é considerado a 11ª nação mais segura do mundo, segundo o Índice Global da Paz de 2016. O país registrou 112 incidentes envolvendo armas de fogo ao longo de 2016, segundo relatório do Departamento Nacional de Polícia Japonesa. No Brasil, o número de mortes por armas de fogo chegou a 44.861 vítimas em 2014, de acordo com Mapa da Violência divulgado no ano passado.

G1

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