O Brasil acompanhou a apuração de domingo (25) como se o tempo estivesse em suspenso. A divulgação dos votos havia sido interrompida depois de uma prorrogação inédita do horário de votação, em meio a denúncias de falta de transporte para eleitores. A dificuldade para chegar às urnas prolongava uma eleição atravessada por pressões sobre o direito de escolher o futuro do país.
Às 21h10, veio a confirmação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), estava reeleito. Foram 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041, ou 48,21%, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Uma diferença de 4.430.191 votos. O retirante pernambucano que se tornou metalúrgico e líder sindical conquistava a Presidência da República pela quarta vez.
Lula chegou ao resultado com a maior votação de sua trajetória e um feito que nenhum candidato à Presidência havia alcançado desde a redemocratização: terminar o primeiro turno em segundo lugar e vencer o segundo. Aos 80 anos, às vésperas de completar 81, acrescentou outro ineditismo a uma vida pública que já havia levado um operário ao posto mais alto do país.
Uma virada construída voto a voto
Em 4 de outubro, Lula havia recebido 53.879.538 votos, contra 56.104.503 de Flávio. Entre os dois turnos, acrescentou 10.376.694 votos ao seu resultado. A desvantagem de 2,22 milhões se transformou em uma vantagem de 4,43 milhões. A virada ocorreu em três semanas nas quais estudantes, movimentos sociais e eleitores que temiam a volta do bolsonarismo ao poder passaram a ocupar as ruas.
O comparecimento foi parte dessa mudança. A abstenção, de 21,08% no primeiro turno, caiu para cerca de 19,2%, segundo o TSE. Mais de 128 milhões de brasileiros foram votar. O Nordeste voltou a ser decisivo: Lula venceu nos nove estados da região e abriu uma vantagem de aproximadamente 13,65 milhões de votos sobre o adversário. Minas Gerais também deu a vitória ao presidente.
A jornalista Daniela Lima resumiu a dimensão do resultado ao falar em “três milagres”, em análise na TMC nesta segunda-feira (26): reduzir a abstenção, converter a mobilização em votos e conquistar a quarta eleição presidencial. No Canal UOL, ainda na noite da apuração, José Roberto de Toledo classificou a vitória como “histórica em todos os aspectos” e afirmou que a diferença “não tem espaço para contestação”.
O país que estava em disputa
O voto decidia a continuidade de um projeto associado ao combate à fome, à valorização do trabalho e à presença do Estado na proteção social. Também decidia se a família Bolsonaro retornaria ao Palácio do Planalto quatro anos depois da derrota de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe para se manter no poder após a eleição de 2022.
Na campanha, Flávio propôs uma mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”, provocando uma reação de juristas em defesa da Constituição de 1988. Mais de 600 pessoas, entre elas os ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, Cezar Peluso e Rosa Weber, assinaram um manifesto pela democracia. A iniciativa, organizada pela Comissão Arns e pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, não citava os candidatos, mas seus organizadores manifestaram preocupação com a proposta do senador.
O candidato do PL chegou à disputa com investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro no financiamento do filme sobre seu pai e em negócios ligados ao advogado Willer Tomaz. No caso das rachadinhas da Assembleia Legislativa do Rio, a denúncia havia sido rejeitada após a anulação de provas, sem julgamento do mérito. Nesta segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes de Flávio e o proibiu de deixar o país, no processo que também investiga Tomaz. O senador questionou publicamente a decisão.
O boicote da Meta e a pressão estrangeira
A campanha de Lula enfrentou o boicote da Meta denunciado pelo presidente e por seus aliados. A reportagem de Patrícia Campos Mello na Folha de S.Paulo expôs mensagens internas em que funcionários reconheciam restrições às contas de Lula e recomendações indevidas de perfis de Flávio. Em 9 de outubro, a conta do petista ficou quase 24 horas sem conseguir impulsionar publicações do feed do Instagram. A Meta negou favorecimento político e atribuiu os episódios a falhas técnicas.
A Procuradoria-Geral Eleitoral identificou descumprimento parcial das ordens destinadas a assegurar tratamento igual às candidaturas. No TSE, a censura ao canal Exército do Lula, suspenso pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, em 11 de outubro a pedido de Flávio e depois restabelecido, ameaçou um dos principais instrumentos de mobilização. Na sexta-feira (23), o ministro Floriano de Azevedo Marques impediu nova suspensão por ato administrativo da presidência. O canal, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), chegou à eleição com mais de 10 milhões de inscritos.
O tarifaço de Donald Trump acrescentava pressão econômica à disputa pela soberania. Em 21 de outubro, o governo liberou mais R$ 6,49 bilhões em crédito para apoiar exportadores atingidos pelas tarifas americanas. A articulação da família Bolsonaro por sanções também havia chegado aos tribunais: Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos de prisão por atuar por medidas contra autoridades e exportações brasileiras para tentar impedir a condenação do pai na trama golpista, segundo a Agência Brasil.
As ruas mudaram a eleição
Uma das primeiras respostas ao resultado do primeiro turno partiu da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Em 5 de outubro, o Centro Acadêmico Evaristo da Veiga organizou uma manifestação que recebeu a adesão de outros cursos. Segundo João Paulo Pimenta, de 22 anos, diretor-executivo da entidade, cerca de duas mil pessoas participaram. Ao ICL Notícias, ele relatou que os organizadores não esperavam aquela dimensão nem que o ato ajudasse a impulsionar mobilizações pelo país.
Os atos se espalharam, aproximaram gerações e deram expressão pública à resistência ao retorno da extrema direita. Em São Paulo, a avenida Paulista recebeu uma grande manifestação em 11 de outubro, sem a presença de Lula, e voltou a ser ocupada na véspera da votação. Na campanha digital, o Exército do Lula organizava a circulação de vídeos e mensagens. A conversa com familiares e conhecidos se somava ao esforço para levar às urnas quem não havia votado no primeiro turno.
A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), de 84 anos, havia descrito esse encontro em entrevista à Focus Brasil, publicada em 22 de outubro. Ela se somava aos estudantes depois de receber mais de 3,2 milhões de votos para o Senado, sem conquistar uma vaga. Via na mobilização a defesa da educação, dos trabalhadores e das políticas públicas, e insistia que a organização precisaria continuar mesmo com Lula eleito.
“A nossa intenção é manter esse movimento, ter um movimento permanente”, afirmou Benedita. A preocupação com o Congresso já estava presente naquela conversa. Sua disposição de continuar nas bases aproximava a experiência de quem enfrentou a ditadura dos jovens que começavam a exercer seu protagonismo político. A vitória deu a esse encontro uma responsabilidade que ultrapassa a eleição.
No primeiro pronunciamento depois do resultado, Lula agradeceu à “generosidade da juventude brasileira que foi para rua para defender a democracia”. Reconheceu também os idosos que, mesmo com dificuldades de locomoção ou problemas de saúde, fizeram questão de votar. A resposta ao risco de retrocesso havia passado por decisões individuais que, somadas, mudaram o resultado nacional.
O mundo de olho no Brasil
A dimensão internacional apareceu nas primeiras leituras do resultado. A Reuters destacou que a vitória de Lula contrariava a sequência de triunfos da direita na América Latina e frustrava a possibilidade de Trump ganhar outro aliado de peso na região. O Brasil dava uma resposta eleitoral a um movimento político com articulação para além de suas fronteiras.
“Com a vitória de Lula, a extrema direita é derrotada no Brasil”, escreveu o Le Monde em editorial, em tradução livre. O jornal francês associou o resultado à rejeição ao retorno da família Bolsonaro e advertiu para as dificuldades de governar com um Congresso dominado pela direita. O Guardian destacou: “Como as ruas e as redes sociais levaram Lula a uma virada histórica no Brasil” (tradução livre).
Até a manhã de segunda-feira (26), ao menos 48 líderes mundiais haviam cumprimentado Lula, segundo levantamento do UOL. Emmanuel Macron defendeu o fortalecimento da parceria entre França e Brasil. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que a “virada do progressismo global acaba de começar”. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que “a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”.
Trump, por sua vez, disse nesta segunda-feira (26), sem apresentar provas, que a eleição brasileira parecia fraudada, segundo a Reuters.
O alcance dessas manifestações ajuda a dimensionar a lição que o povo brasileiro deu ao mundo. Diante de uma disputa que parecia favorecer a extrema direita, houve organização suficiente para mudar o desfecho pelas urnas. A mobilização recuperou espaço nas ruas, alcançou eleitores e produziu uma vitória reconhecida para além do campo político de Lula.
Uma vitória reconhecida pelas instituições
O reconhecimento veio também de Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Ao anunciar o resultado, o presidente do TSE destacou a “expressiva vitória nas urnas” de Lula. Sobre a votação, afirmou: “Temos absoluta segurança do processo eleitoral”. A declaração tinha peso diante da reação de Flávio, que, na noite de domingo, recusou-se a reconhecer a derrota e anunciou que buscaria anular a eleição.
Na GloboNews, Natuza Nery chamou a fala do senador de “discurso de mau perdedor” e apontou um “DNA de radical golpista”. Lembrou que a própria campanha de Flávio havia pedido a extensão do horário. As denúncias de falta de transporte chegaram ao TSE ainda no início da tarde. Sem decisão antes do encerramento regular, a campanha de Lula recorreu ao STF; a ordem de Cristiano Zanin, divulgada depois das 17h, alcançou apenas as urnas que permaneciam abertas.
Na tarde de segunda-feira (26), a coluna Painel, da Folha, informou que Flávio havia desistido de pedir a anulação, após ser convencido por aliados e advogados da fragilidade jurídica da iniciativa. A campanha passou a preparar uma ação de investigação judicial eleitoral por suposto abuso de poder econômico contra a chapa de Lula.
A cobertura nacional registrou a ruptura com o padrão das eleições anteriores. A Folha publicou: “Lula vira, bate Flávio Bolsonaro e se reelege para inédito 4º mandato; rival não reconhece”. O Broadcast, do Grupo Estado, destacou: “Vitória de Lula marca primeira virada em disputa presidencial em 2º turno”. O resultado histórico dividia espaço com o alerta para a reação do derrotado e para os obstáculos do próximo mandato.
Entre os políticos, Marina Silva celebrou: “Vitória da democracia, vitória do povo brasileiro”. O deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP) escreveu que “a democracia venceu mais uma vez”. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, cumprimentou Lula e pediu respeito à vontade expressa nas urnas. Ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceu a “decisão livre e soberana do povo brasileiro” e defendeu a pacificação do país.
A próxima disputa passa pelo Congresso
A eleição de Lula interrompeu a volta do bolsonarismo ao Executivo, mas o resultado de 4 de outubro permanece no Legislativo. O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara. No Senado, a composição divulgada pela própria Casa depois do segundo turno projeta 29 cadeiras para o partido, em um total de 81. A força parlamentar da direita condicionará a votação do orçamento, as políticas sociais e a relação entre os Poderes.
A promessa de ampliar a participação popular responde a esse cenário. Lula afirmou depois da vitória que vai mudar a maneira de governar e aproximar a população das decisões. O compromisso será medido na capacidade de ouvir os movimentos que ajudaram a reelegê-lo e de sustentar políticas públicas diante de um Congresso mais hostil. A mobilização que cresceu no segundo turno passa a ter uma tarefa concreta na defesa dos direitos e da democracia.
Em Niterói, essa organização já recomeçou. Os estudantes da UFF anunciaram nova manifestação para esta segunda-feira (26). “Não é porque o Lula ganhou que nós vamos relaxar”, disse João Paulo Pimenta ao ICL Notícias. O objetivo, explicou, é afirmar à extrema direita que “nós seremos o obstáculo deles”. No lugar de onde partiu uma das primeiras reações ao primeiro turno, a disposição agora é permanecer nas universidades e nas ruas. Lula venceu pela quarta vez. Quem ajudou a construir a vitória já se organiza para defendê-la.
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