Delegado Arigony que investiga incêndio deixou férias e apura mortes de prima e alunos

    “Todo mundo na cidade perdeu algum parente ou amigo nesta tragédia” é a frase mais ouvida e repetida nas ruas de Santa Maria desde o incêndio que matou 235 pessoas na boate Kiss. A conta inclui o delegado regional da cidade, Marcelo Arigony, responsável por chefiar os dez delegados que participam da investigação […]

Por Editoria Delegados

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“Todo mundo na cidade perdeu algum parente ou amigo nesta tragédia” é a frase mais ouvida e repetida nas ruas de Santa Maria desde o incêndio que matou 235 pessoas na boate Kiss. A conta inclui o delegado regional da cidade, Marcelo Arigony, responsável por chefiar os dez delegados que participam da investigação sobre o incêndio. Sabrina Mendes, de 18 anos, prima em primeiro grau de Arigony, é uma das vítimas do incêndio. Ela morreu intoxicada, na madrugada de domingo, dentro da boate.

 

Na verdade, a tragédia passou ainda mais perto da vida de Arigony. Na sexta-feira, véspera do incêndio, o delegado recebeu em casa um grupo de 30 jovens para comemorar os 18 anos de sua filha, Ana Luiza, completados um dia antes. De lá todos foram para a boate Absinto, cujo dono é Mauro Hoffmann, um dos sócios da Kiss, e que está preso temporariamente a pedido de Arigony.

 

“Decidimos comemorar na sexta. Já imaginou se a festa fosse no sábado? O que teria acontecido?”, questionou o delegado, sugerindo que Ana Luiza poderia estar entre as mais de 230 vítimas do incêndio na Kiss.

 

Apesar da proximidade pessoal e familiar com a tragédia, Arigony descartou a possibilidade de que isso interfira no seu trabalho à frente das investigações. “Se houvesse qualquer problema seria o primeiro a declarar meu próprio impedimento”, afirmou.

 

A exemplo da maior parte dos outros 260 mil moradores da cidade que “perderam algum amigo ou parente na tragédia”, Marcelo Mendes Arigony, 40 anos, solteiro, é nascido e criado em Santa Maria.

 

Filho de uma professora estadual e do também ex-delegado regional Luiz Antonio Arigony, de 69 anos, começou a trabalhar como estagiário mirim do Banco do Brasil, prestou concurso, continuou no banco por dez anos, até se formar na Faculdade de Direito de Santa Maria, onde hoje dá aulas de direito penal – o que talvez explique seu tom professoral e as longas explanações teóricas nas entrevistas coletivas.

 

Pouco depois foi aprovado no concurso para delegado de polícia. Iniciou a carreira em Rio Grande, no interior gaúcho, foi transferido para Porto Alegre, onde exerceu várias funções e logo depois voltou para a cidade natal, onde passou por todas as delegacias até chegar ao cargo de delegado regional.

 

Sua irmã mais nova, Michele, é a terceira na linhagem dos Arigony a seguir a profissão do pai. Foi aprovada recentemente no concurso e aguarda ser chamada para alguma delegacia gaúcha. Ana Luiza, a filha única, acabou de ingressar na faculdade de direito, mas Arigony não quer influenciar o futuro profissional da garota.

 

Às 5h da madrugada de domingo, quando foi acordado com a notícia de que “20 pessoas” tinham morrido na Kiss, ele pensou imediatamente na filha. Arigony aproveitava os últimos dias de férias que, teoricamente, terminariam nesta sexta-feira.

 

“Quando cheguei lá, entrei no banheiro e vi uns 40 corpos amontoados”, recordou. Entre eles, alguns de seus alunos na Faculdade de Direito. Por isso, Arigony chorou quando dirigiu a palavra a um grupo de 300 universitários que clamavam por justiça na porta da delegacia regional, quarta-feira.

 

Enquanto contava a história do aniversário da filha a um grupo de jornalistas, o delegado foi interrompido por uma repórter que perguntou se ele não ficava incomodado pelo fato de o “poder público” se calar e deixar para a Polícia Civil toda a responsabilidade pelo caso.

 

“A polícia é o poder público”, afirmou. “Me sinto a pessoa que tem o dever de dar uma resposta à sociedade”.

 

Questionado se a condução do inquérito é o coroamento de sua carreira policial, Arigony quase foi novamente às lágrimas. “Fico triste de aparecer nesta situação”, disse o delegado, que repirou fundo e completou, “já não tem mais muita coisa que a polícia possa me dar”.

 

IG

 

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