A quem pertence o dinheiro apreendido do crime?

Se a operação foi liderada pela PF, o recurso deve fortalecê-la. Se foi fruto de investigação da Polícia Civil ou de operação da PM, o recurso deve retornar a esses entes

Por Editoria Delegados

Por Thiago Frederico de Souza Costa


Veja como os delegados de polícia analisam ocorrências e tomam decisões

Nos bastidores das discussões sobre o substitutivo ao Projeto de Lei n.º 5.582 (Marco Legal do Combate ao Crime Organizado), tem-se propagado a narrativa recorrente de que a proposta aprovada enfraqueceria a Polícia Federal (PF), reduzindo seus recursos no enfrentamento às organizações criminosas.

Antes de enfrentar o cerne da questão, é preciso compreender que o modelo federativo brasileiro gerou um sistema de arrecadação tributária altamente concentrado na União. Brasília detém a maior parte dos recursos, mas a execução das políticas públicas mais sensíveis recai sobre os ombros de governadores e prefeitos. Se na saúde e na educação o constituinte foi sábio ao prever vinculações orçamentárias obrigatórias, na segurança pública criou-se um vácuo: temos responsabilidades definidas, mas inexiste uma fonte constitucional específica de financiamento.

Os dados da 19.ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, evidenciam uma assimetria gritante no tocante ao investimento em segurança pública: Estados e Distrito Federal respondem por mais de 77% do investimento total na área. De um montante de R$ 153 bilhões, a União contribui com apenas R$ 21 bilhões, enquanto os Estados aportam massivos R$ 118,5 bilhões e os municípios, R$ 13,5 bilhões.

São os entes estaduais que mantêm as polícias civis, militares, penais e bombeiros, garantindo a ordem pública, a investigação de homicídios e tráfico de drogas, o patrulhamento ostensivo e, crucialmente, o combate direto às facções.

Veja-se o caso das regiões de fronteira: o combate ao tráfico internacional de drogas e de armas é competência da União. No entanto, quando a cocaína passa pela fronteira seca e chega às ruas de Brasília, do Paraná ou do Rio de Janeiro, quem realiza a apreensão, na maioria esmagadora das vezes, são as polícias estaduais.

O custo dessa operação é estadual. O salário do policial que arriscou a vida é pago pelo Estado. A guarda e o armazenamento do material apreendido – um pesadelo logístico – recaem sobre a estrutura estadual. E, ao final, quando os bens dessa organização criminosa são alienados (leilões de carros de luxo, imóveis, aeronaves), para onde vai o dinheiro? Pela regra atual, é canalizado para fundos geridos pela União. O Estado paga a conta da repressão, e a União fica com os ativos financeiros decorrentes da apreensão.

Nesse cenário, um pilar do substitutivo aprovado ao PL 5.582 é a justiça distributiva, que se mostra urgente diante de uma situação esdrúxula, na qual os Estados atuam, frequentemente, em competências originariamente federais.

O texto aprovado na Câmara dos Deputados corrige isso com uma lógica cartesiana e justa: o recurso deve ir para quem trabalhou. Se a operação foi liderada pela Polícia Federal, o recurso deve fortalecê-la. Se foi fruto de investigação da Polícia Civil ou de operação da Polícia Militar, o recurso deve retornar a esses entes.

Tal previsão foi uma inovação, pois não constava da proposta originária do governo federal, que, presume-se, não tem interesse em dividir recursos com os demais entes federativos. Logo, o que o texto aprovado propõe é a correção de uma distorção histórica que penaliza os Estados e o Distrito Federal – os entes que, por intermédio de suas forças policiais, verdadeiramente sustentam a segurança pública no Brasil.

Argumentar que isso “enfraquece” a Polícia Federal é uma narrativa injusta. A União já se apodera de todo o produto do perdimento de bens, mesmo nos processos que tramitam nas justiças estaduais e do Distrito Federal, e o crime organizado nunca foi tão forte e presente em todo o território nacional.

Não se trata de retirar dinheiro da Polícia Federal – especialmente nos casos em que ela não teve nenhuma participação –, mas de estancar a sangria dos cofres dos Estados que subsidiam a atuação em matérias de atribuição federal.

A Polícia Federal é instituição forte e respeitada. O que a fragiliza é o parco investimento federal, que resulta em problemas como um efetivo de servidores muito baixo para um imenso plexo de atribuições em um país de dimensões continentais.

Não será a incorporação do produto do trabalho das forças policiais dos Estados e do Distrito Federal pelo governo federal, sob o argumento de fortalecer a Polícia Federal, que resolverá o problema do combate ao crime organizado. O fortalecimento das polícias estaduais é uma imprescindível barreira contra a capilaridade do crime organizado, que ignora competências administrativas.

A propósito, vale ressaltar que o relator do PL 5.582 deixou de contemplar um ponto crucial: alterar a Lei de Drogas no mesmo sentido, prevendo a perda em favor dos Estados e do Distrito Federal do produto do crime nos processos de tráfico em que a investigação decorrer de suas respectivas forças.

Aprovado na Câmara, é chegada a hora de o Senado Federal validar esse mecanismo de justiça federativa na persecução penal, fortalecendo as polícias estaduais e do Distrito Federal, dando-lhes o retorno financeiro de sua eficiência operacional.

Por Thiago Frederico de Souza Costa
*Delegado de Polícia, secretário-executivo de Gestão da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, é secretário-executivo do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp)

DELEGADOS
Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

“IFood de Drogas”: Operação Madara prende funcionário do TJ que vendia drogas em Teresina

(PI) Yan Brayner, Diretor de Inteligência da SSP/PI apresenta resultado da operação

Brasil dá um passo decisivo no enfrentamento ao crime organizado com a nova Lei Antifacção

Chico Lucas, Secretário Nacional de Segurança Pública participa de entrevista e trata da nova legislação

Senador com CNH vencida, dirige carro sem placa, usa giroflex, dá “carteirada” e foge de abordagem policial em São Paulo

(SP) Parlamentar dirigia carro de luxo sem placa e com giroflex ilegal; na fuga, Giordano subiu em calçada e quase atropelou policiais militares

Comoção e reconhecimento marcam despedida do delegado Steferson Nogueira, que deixa um legado na segurança pública

Um grande pai, esposo, delegado, companheiro e exemplo de liderança

Vulnerabilidade Etária nos Crimes Contra a Dignidade Sexual de Acordo com a Lei 15.353/26

Por Eduardo Luiz Santos Cabette

Delegado Steferson Nogueira morre aos 44 anos

(PB) Seu reconhecimento ultrapassou fronteiras estaduais: nos anos de 2022, 2023, 2024 e 2025, foi apontado como um dos Melhores Delegados de Polícia do Brasil, consolidando seu prestígio entre colegas

Delegados da PF aprovam paralisação “82 horas sem a Polícia Federal”

A categoria defende a criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas com direcionamento de recursos apreendidos à PF
Veja mais

Operação Cerco Fechado prende 78 criminosos e apreende cocaína e ouro no Piauí

(PI) Os mandados cumpridos estão relacionados a crimes como furtos, roubos, tráfico de drogas, estupro, violência doméstica e homicídios.

Reconhecimento do CONSESP destaca atuação de Thiago Costa na segurança pública

(DF) Além desse reconhecimento institucional, Thiago Costa também foi incluído no seleto grupo dos Melhores Delegados de Polícia do Brasil no Censo 2025, na Categoria Gestão

“82 horas sem a Polícia Federal”: delegados decidem se farão paralisação

Se aprovado o movimento, os profissionais farão apenas flagrantes, suspendendo as operações e demais atividades

Piauí investe R$ 24 milhões na segurança e adquire 7 mil Glocks, viaturas e novo fardamento

(PI) 7.200 pistolas Glock, motocicletas e uniforme desenvolvido com foco no conforto térmico e na funcionalidade, o novo fardamento da PM resgata a identidade histórica da corporação

Operação Força Integrada prende 116 pessoas e bloqueia R$ 97 milhões em 15 estados

Iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública reúne instituições de Segurança Pública no enfrentamento a organizações criminosas

Atuação do Sindpesp e Adpesp resulta no envio à Alesp do projeto de reajuste de 10% para os delegados

(SP) A categoria pressionava o governo por um reajuste em dois dígitos. O percentual foi discutido diretamente pelo governador Tarcísio de Freitas com o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico

Delegado Ruchester Marreiros desenvolve reconstituição de crimes com uso de tecnologia

Reconstituições assistidas por recursos tecnológicos reforçam a cadeia de custódia e elevam o nível técnico da persecução penal
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.