O crescimento acelerado da frota de veículos elétricos e híbridos no Brasil passou a despertar a atenção de organizações criminosas, que encontraram nesse segmento um novo mercado para atuação. Além da facilidade de deslocamento e recarga em locais afastados, o elevado valor comercial das baterias de alta tensão transformou esses componentes em um dos principais alvos do mercado clandestino de peças automotivas.
Levantamento realizado pela Ituran Brasil, com base em dados oficiais, revela que, entre janeiro e maio de 2026, o Estado de São Paulo contabilizou 107 ocorrências de roubos e furtos envolvendo veículos eletrificados, número superior ao dobro dos 53 casos registrados no mesmo período de 2025. O aumento de aproximadamente 102% supera, inclusive, a expansão da própria frota nacional.

Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) demonstram que a quantidade de automóveis elétricos e híbridos em circulação cresceu cerca de 72% no intervalo analisado, passando de 445,9 mil para 765,9 mil unidades. Embora expressivo, esse avanço foi inferior ao ritmo de crescimento das ocorrências criminais, evidenciando uma preocupação crescente para proprietários, seguradoras e autoridades de segurança pública.
A cidade de São Paulo concentra a maior parcela dos registros, respondendo por 74 ocorrências. Outro aspecto observado é a mudança no perfil da criminalidade. Enquanto anteriormente predominavam os roubos mediante violência ou grave ameaça, em 2026 os furtos passaram a representar aproximadamente 85% dos casos registrados, indicando uma atuação cada vez mais especializada das quadrilhas.

No Estado do Rio de Janeiro, levantamento do Sindicato das Empresas de Seguros Privados, de Resseguros e de Capitalização dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Sindseg) aponta cenário semelhante. A frequência de roubos e furtos envolvendo veículos elétricos e híbridos plug-in alcançou 3,85% da frota segurada, percentual significativamente superior aos 2,17% observados entre veículos movidos exclusivamente a combustão.
Especialistas apontam que o principal objetivo dos criminosos não é apenas a revenda do automóvel completo, mas principalmente a comercialização de suas baterias de alta tensão. Esse componente representa o item mais caro do veículo e pode corresponder a uma parcela expressiva do valor total do automóvel. Em diversos modelos comercializados no Brasil, a substituição da bateria pode custar entre 40% e 50% do preço de mercado do veículo.
Essa elevada valorização alimenta o comércio clandestino de peças automotivas. Em plataformas digitais e marketplaces é possível encontrar anúncios de baterias usadas sendo ofertadas por valores inferiores a 20% do preço praticado pelas fabricantes, muitas vezes sem qualquer comprovação de procedência. Embora algumas dessas unidades possam ser provenientes de veículos sinistrados, especialistas alertam para a possibilidade de parte desse material ter origem em automóveis roubados ou furtados.

Ao contrário do que frequentemente é divulgado nas redes sociais, a retirada da bateria diretamente de um veículo estacionado praticamente não ocorre. As baterias de alta tensão são instaladas no assoalho do automóvel, integradas à estrutura do chassi e conectadas ao sistema elétrico de alta voltagem, que pode operar acima de 400 volts. A remoção exige procedimentos técnicos específicos, equipamentos de isolamento elétrico, elevadores automotivos e plataformas capazes de suportar conjuntos que podem pesar entre 300 e 500 quilos, dependendo do modelo.
Em razão dessas dificuldades operacionais e dos elevados riscos de acidentes, como choques elétricos fatais e incêndios, os criminosos optam por subtrair o veículo completo. Posteriormente, o automóvel é encaminhado para desmanches clandestinos, onde a desmontagem ocorre com equipamentos apropriados e mão de obra especializada. Investigações policiais já identificaram, inclusive, locais que utilizam ligações clandestinas de energia elétrica para recarregar veículos com baixa autonomia antes do início do desmonte.
O avanço dessa modalidade criminosa também produz reflexos diretos no mercado segurador. Com o aumento das ocorrências e dos prejuízos financeiros, companhias de seguro vêm reajustando os valores das apólices dos veículos eletrificados em ritmo superior ao observado entre automóveis convencionais, transferindo parte do risco aos consumidores.
O cenário evidencia um novo desafio para a segurança pública brasileira. Além do combate às organizações especializadas em furto e receptação de veículos, cresce a necessidade de intensificar a fiscalização sobre o comércio ilegal de baterias de alta tensão, fortalecer o controle da rastreabilidade desses componentes e ampliar a integração entre fabricantes, seguradoras e forças policiais para reduzir a atuação das redes criminosas que exploram esse mercado de alto valor econômico.
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