“Um tiro de fuzil acerta o que o atirador não vê”, diz coronel

Confrontos de policiais e bandidos com armas de guerra fez crescer balas perdidas O coronel Ubiratan Ângelo, de 57 anos, comandou a Polícia Militar no Rio de Janeiro em 2007, antes de a Secretaria de Segurança Pública criar as Unidades de Polícia Pacificadora, instaladas nas favelas cariocas a partir de 2008. Na avaliação […]

Por Editoria Delegados

Confrontos de policiais e bandidos com armas de guerra fez crescer balas perdidas

 

 

O coronel Ubiratan Ângelo, de 57 anos, comandou a Polícia Militar no Rio de Janeiro em 2007, antes de a Secretaria de Segurança Pública criar as Unidades de Polícia Pacificadora, instaladas nas favelas cariocas a partir de 2008. Na avaliação do coronel, as UPPs reduziram os confrontos entre policiais e bandidos, o que também fez cair nos últimos anos o número de vítimas de balas perdidas, mas elas voltaram a assustar os cariocas em 2015. Do início do ano até esta quinta-feira (29), 19 pessoas foram atingidas por tiros que a polícia ainda não sabe quem disparou.

 

Três delas morreram. Durante todo o ano de 2013, último dado disponível para comparação, foram nove mortes. Para o coronel, o recrudescimento é uma consequência da reação de criminosos contra a pacificação e da briga entre bandidos nas áreas sem UPPs. Os tiroteios envolvem armas de guerra, como o fuzil, que elevam muito as chances de um inocente ser alvejado. Atualmente, o coronel é um dos coordenadores da ONG Viva Rio, que desenvolve estudos de combate à violência.

 

ÉPOCA – Qual análise o senhor faz do aumento de casos de balas perdidas no Rio de Janeiro?

Coronel Ubiratan Ângelo – Eu trabalho com o número de 18 vítimas, sendo três fatais, desde a menina Larissa, de 4 anos, que morreu atingida no dia 17 de janeiro. Em nove situações, não sabemos se houve uma ação policial próxima ao local onde estava a vítima. Oficialmente, foram dois registros envolvendo a polícia: um no complexo de favelas do Alemão e outro na Rocinha. Sete, aparentemente, resultaram do confronto apenas entre bandidos. Há um único caso na Zona Sul, que foi na Rocinha. Os demais ocorreram nas mesmas áreas de grande incidência de homicídios no Rio de Janeiro. São regiões sempre violentas.

ÉPOCA – As mortes por balas perdidas diminuíram nos últimos anos depois de um pico de 16 vítimas fatais em 2008. Agora, em janeiro, ocorreram três mortes em dez dias. O que aconteceu?

Coronel Ubiratan – Se o número de confrontos entre bandidos ou entre a polícia e os criminosos aumenta, cresce a chance de haver vítimas inocentes. Em sua maioria, são jovens e negros que ficam mais expostos nesses espaços violentos, onde moram, trabalham e têm atividades de lazer. Nos confrontos, são usadas armas de guerra. Um tiro de fuzil acerta o que o atirador não vê, quer sejam criminosos ou policiais envolvidos. Não estou justificando um policial atirar a esmo, mas quando você é alvo de rajadas de fuzil, você atira não para acertar o cara, mas para poder sair da zona de perigo, avançar ou recuar. Em muitos casos, o policial está com medo. Há vídeos na internet que mostram o cara atirando numa direção onde está não só o bandido, mas também moradores de bem. Isso acontece nas áreas mais violentas que têm mais autos de resistência (homicídios decorrentes de intervenção da polícia).

 

ÉPOCA – Em 2014, 582 pessoas foram mortas por supostamente reagir a ações da polícia; aumento de quase 40% em relação a 2013. Por que isso ocorreu se, desde 2011, os registros vinham caindo?

Coronel Ubiratan – Em 2011, as UPPs estavam no auge e caiu o número de confrontos entre policiais e criminosos. Você pode correlacionar os confrontos, os autos de resistência e as balas perdidas. Nas áreas onde foram instaladas as UPPs, os registros dessas ocorrências diminuíram.

 

Revista Época

 

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