Tragédia em Osasco: a hierarquia policial que mata

A segurança pública no Brasil enfrenta uma crise que ultrapassa a questão da violência nas ruas. O assassinato do secretário adjunto de Segurança de Osasco por um subordinado é mais que inaceitável sob qualquer perspectiva, é um episódio trágico que escancara as fissuras de um sistema hierárquico em colapso. Reflexo de uma estrutura que, muitas […]

Por Editoria Delegados

A segurança pública no Brasil enfrenta uma crise que ultrapassa a questão da violência nas ruas. O assassinato do secretário adjunto de Segurança de Osasco por um subordinado é mais que inaceitável sob qualquer perspectiva, é um episódio trágico que escancara as fissuras de um sistema hierárquico em colapso.

Reflexo de uma estrutura que, muitas vezes, confunde autoridade com autoritarismo, fomentando ambientes de trabalho insustentáveis dentro das corporações policiais.

A hierarquia, essencial para o funcionamento das instituições policiais, perde sua legitimidade quando desvirtuada. Em vez de promover respeito e cooperação, pode se tornar palco de práticas abusivas, como assédio moral, humilhações públicas e transferências punitivas. Esses comportamentos, além de comprometerem a saúde mental dos profissionais, minam a eficiência e a coesão das corporações.

Casos de abuso de poder são cada vez mais comuns. Relatos de subordinados submetidos a críticas desproporcionais e ambientes de pressão extrema revelam uma dinâmica que, em vez de construir confiança, alimenta um ciclo contínuo de insatisfação e desgaste. Em situações extremas, tragédias como a de Osasco tornam-se o desfecho de anos de negligência estrutural.

Essa crise interna não surge isoladamente. Ela é alimentada por uma combinação de fatores estruturais e culturais. A falta crônica de efetivo, jornadas extenuantes e escalas imprevisíveis submetem os profissionais a níveis elevados de estresse. Esse cenário é agravado por uma cultura institucional que glorifica o conceito do ethos do guerreiro, valorizando uma invulnerabilidade que desestimula a busca por ajuda psicológica.

Esse estigma em torno da saúde mental cria um ambiente onde o sofrimento se torna invisível, mas corrosivo. Como resultado, cresce o número de policiais emocionalmente esgotados e, tragicamente, as taxas de suicídio entre os profissionais da segurança pública.

O impacto dessa deterioração ultrapassa os muros das corporações. Policiais emocionalmente abalados têm maior propensão a adotar comportamentos agressivos, comprometendo a relação com a população. Esse ciclo vicioso alimenta o distanciamento e a desconfiança da sociedade em relação às forças de segurança. Afinal, uma polícia emocionalmente fragilizada e desacreditada não protege; ela perpetua a insegurança que deveria combater.

Os sinais de alerta são claros e não podem ser ignorados. Para evitar novas tragédias, é essencial repensar a estrutura e a cultura das instituições policiais. Reformas que priorizem a dignidade e o bem-estar dos policiais precisam ser implementadas com urgência.

Entre as medidas indispensáveis estão políticas claras de combate ao assédio moral, suporte psicológico acessível e livre de estigmas, além de uma formação ética e técnica voltada à liderança. A hierarquia deve ser exercida com respeito, competência e justiça, afastando qualquer traço de autoritarismo.

O assassinato em Osasco não pode ser apenas mais uma manchete. Ele é um grito de alerta para a necessidade de transformar profundamente as corporações policiais, resgatando a humanidade e a integridade de seus profissionais.

Enquanto as instituições ignorarem suas próprias falhas internas, a segurança pública no Brasil continuará fragilizada. A valorização daqueles que estão na linha de frente é o primeiro passo para restaurar a confiança da sociedade e garantir que tragédias como essa nunca mais se repitam.

Sobre a autora

Raquel Gallinati
Secretária de Segurança Pública de Santos
Delegada de Polícia
Diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil

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