The Walking dead in Brazil, por André Luis Luengo

    Há uma série transmitida pela televisão de título “The Walking Dead”. Ela mostra a transformação da população em zumbis, fazendo com que os mortos se erguessem e passassem a se alimentar dos vivos. A sua origem foi nos quadrinhos embora vários elementos da série estejam saindo diferentes dos quadrinhos criados por Robert Kirkman. […]

Por Editoria Delegados

 

 

Há uma série transmitida pela televisão de título “The Walking Dead”. Ela mostra a transformação da população em zumbis, fazendo com que os mortos se erguessem e passassem a se alimentar dos vivos. A sua origem foi nos quadrinhos embora vários elementos da série estejam saindo diferentes dos quadrinhos criados por Robert Kirkman. Outro detalhe é que não é abordada a origem da epidemia que dizimou a maior parte da humanidade em sua ficção dramático-apocalíptica.

 

Assim, a sociedade desmonta-se e a lei do mais forte é agora mais evidente do que nunca. Há no enredo grupos de sobreviventes que buscam um lugar onde consigam resistir em segurança. Quando encontram esse lugar, passam a brigar entre si e lutam para defender as suas próprias vidas.

 

A guerra passa a ser com os próprios humanos e também com os walkers. Guardadas as devidas proporções e numa rápida visão na área central de São Paulo, percebemos que a ficção imita a realidade, ou será que a realidade é imitada pela ficção? O certo é que caminhar na cracolândia (região no centro da cidade de São Paulo, nas imediações das avenidas Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e na rua Timbiras) indubitavelmente nos “teletransporta” as imagens da série “The Walking Dead”. Infelizmente malgrado estejamos comentando sobre seres humanos, as visões que temos são de verdadeiros zumbis. São andrajos que caminham de um lado ao outro, desorientados, revirando lixos e comendo do lixo, fazendo as suas necessidades fisiológicas em qualquer local e à vista de todos.

 

Utilizam o piso como colchões e os jornais como cobertores. Interessante é que concomitantemente as pessoas que passam por esses locais, ignoram o que veem, ou seja, se acostumaram a isso ou se tornaram hipócritas. Entender o porquê estes seres humanos ali se encontram, ou seja, na cracolândia faz parte daquilo que se convencionou chamar de cinema marginal, isto é a atividade cinematográfica nessa região central da cidade. Nesse local, várias produtoras e alguns cinemas surgiram nos idos de 60, todos permeados de muita sexualidade, convolados posteriormente como pornochanchada. Então, nessa

localidade permaneceu o legado cultural da promiscuidade e seus afins. Ainda que o Poder Público se empenhe em retirar esses moradores de rua dali, declarando de utilidade pública imóveis que são desapropriados e até tentando revitalizar o local, a visão é deprimente. Temos mulheres, crianças e adolescentes relegados e coisificados. Enxergar tais fatos e analisa-los à luz do Direito não trará resolução ao caso.

 

Trata-se verdadeiramente de questão social, de saúde e de política pública, mas não apenas de responsabilidade do Estado, mas sim de todos nós. O caso envolve uma relação entre fazer morrer e de deixar viver, isto é, implantação estratégica de governo da vida. No século XIX o filósofo parisiense Michel Foucault já destacava o surgimento de uma espécie de transformação do direito político, o direito de fazer viver e de deixar morrer.

 

A técnica de poder sobre o corpo individual, a potencialização do indivíduo, a implantação de técnicas de poder pautada no controle e na gestão de uma massa de indivíduos, com mapeamentos da dinâmica de vida e morte do ser humano. Eis que surge a biopolítica para dar aplicabilidade aos instrumentos de gestão identificados. Passa-se a pensar no indivíduo como uma população e o “fazer viver dignamente”. Simples e singelos gestos e ações individuais contribuem sobremaneira para evitar tais acontecimentos. Devemos tratar todos de modo digno, solidário, fraterno.

 

Dispensar urbanidade ao próximo, independentemente da sua posição ou classe social é salutar. Enfim, agirmos com lealdade e cumplicidade aos nossos são comportamentos imprescindíveis para mudarmos esse cenário de desigualdade e desrespeito aos seres humanos. Temos the walking dead ao vivo e a cores, ao nosso

 

lado. Porém os zumbis não são atores maquiados, mas sim serem humanos em estado de penúria, fedentinosos. Ao invés de comerem seres vivos, os nossos seres reviram e comem restos de comida podre. Por derradeiro, na ficção os zumbis são mortos com tiros nas cabeças, mas aqui, os nossos, nós na realidade já os matamos quando nos omitimos e fingimos que eles existem.

 

Sobre o autor

 

André Luiz Luengo é Delegado de Polícia em Dracena, SP. Mestre em Direito. Professor de Direito na REGES de Dracena. Professor da Academia de Polícia de São Paulo. Contato: luengo.garra@hotmail.com

 

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