Por que não sou aprovado na OAB?

Por Mara Regina Carniel Piva e Otávio Piva   A pergunta que se fez título é ouvida aberta e constantemente na sala de aula de cursos preparatórios a concursos públicos e Exame de Ordem. Ela é pronunciada, quase sempre, de maneira informal, na roda de colegas que se identificaram num ponto: a prática de estudar […]

Por Editoria Delegados

Por Mara Regina Carniel Piva e Otávio Piva

 

A pergunta que se fez título é ouvida aberta e constantemente na sala de aula de cursos preparatórios a concursos públicos e Exame de Ordem. Ela é pronunciada, quase sempre, de maneira informal, na roda de colegas que se identificaram num ponto: a prática de estudar muito, dedicar-se ao extremo e, mesmo assim, não conseguir êxito no concurso público sonhado ou no Exame de Ordem. Não pouco, se conhecem relatos de jovens que, pelo insucesso constante, abandonam o sonho da carreira pública e, no caso do Exame de Ordem, simplesmente, buscam fazer outro curso superior, de forma a se inserir ao mercado de trabalho. Cria-se o estigma do insucesso e da incompetência.

 

Talvez o que esses jovens adultos e seu grupo familiar e social não estejam percebendo é que existe nesses insucessos muito mais do que falta de estudo, de falta de inteligência ou, como já ouvimos dizer, “resultado da preguiça”. Tem-se que, inicialmente, lembrar que há relação direta entre os processos de aprendizagem que antecedem as provas e o insucesso. Para Vygotsky (SANTOS, 2002), é pela aprendizagem com os outros que o indivíduo constrói o conhecimento, promovendo o desenvolvimento mental, de forma a deixar de ser um “ser biológico” para se tornar um “ser humano”. Essa afirmação poderia ser reduzida à constatação de que a aprendizagem e desenvolvimento andam lado a lado, indissociáveis. Parece que constatamos o óbvio, mas não.

 

Se considerarmos esse pressuposto, estamos autorizados a crer que as dificuldades do jovem, em relação às provas de concursos ou Exame de Ordem, podem ter muito mais relação com o inconsciente do que com consciente e podem estar muito mais ligadas à família (FERNANDEZ, 1991) e ao processo de socialização, do que propriamente às causas que são normalmente atribuídas pelo senso comum.

 

Seguindo a linha de pensamento de Ezpeleta e Rockwell (1986, p. 58), alunos não são vistos como meros sujeitos passivos e determinados pela estrutura, mas sim integrantes ativos de um processo de permanente construção social, no qual as experiências pessoais acumuladas também participam, pois o processo educativo recoloca, a cada instante, “a reprodução do velho e a possibilidade da construção do novo”. Somos, de alguma forma, resultado da nossa própria história.

 

Por isso, concordamos com a opinião de Sandra Fernandes de Freitas e Maria Lúcia de Oliveira (2009), segundo as quais a psicanálise nos oferece instrumentos que permitem considerar a dimensão singular do sujeito e os aspectos inconscientes envolvidos no processo de aprendizagem. Para as autoras, a psicanálise tem “…contribuído para a compreensão dos fatores afetivos e relacionais implicados no ato de aprender e no processo de ensino-aprendizagem.”

 

Enfim, não se retira dos candidatos o ônus de ter que estudar muito, da necessidade de abdicar de horas de sono e de lazer, da auto‐organização, do dever de investir em compra de bons livros e a realização de bons cursos preparatórios. Esses elementos objetivos contribuem muito para o sucesso. O que queremos exclamar é que, nos casos recorrentes de reprovação em provas de concursos públicos e do Exame de Ordem, o bloqueio pode não estar ligado a processos objetivos de aprendizagem, mas sim a processos psíquicos, portanto, inconscientes, podendo ser a psicanálise o caminho para desvenda-los. Talvez seja o momento de não só investir em agregar conhecimento, mas sim em auto-conhecimento. A raiz de tudo pode estar em você. Pense nisso.

 

* Mara Regina Carniel Piva é Psicanalista pelo Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul e Psicopedagoga graduada pela PUC-RS

** Otávio Piva é Mestre e doutorando em Ciências Sociais pela PUC‐RS. E professor de Direito Constitucional em cursos preparatórios a concursos públicos e Exame de Ordem há mais de 15 anos

 

Bibliografia

 

BOSSA, Nadia A. Fracasso escolar: um olhar psicopedagógico. Porto Alegre: Artmed, 2002.

COULON, Alain. Etnometodologia e educação. Petrópolis: Vozes, 1995

EZPELETA, Justa; ROCKWELL, Elsie. Pesquisa participante. São Paulo: Cortez, 1986

FERNÁNDEZ, Alicia. A Inteligência aprisionada: abordagem psicopegagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre: ArtMed, 1991.

FREITAS, Sandra Fernandes de; Oliveira, OLIVEIRA, Maria Lúcia de. As dificuldades de aprendizagem escolar sob o olhar da psicanálise: uma investigação da produção científica. Revista Ibero–‐Americana de Estudos em Educação. Vol. 4, nº 1, 2009.

SANTOS, Bettina Steren dos. Vygotsky e a teoria historico–‐cultural. In: LA ROSA, Jorge (Org). Psicologia e educação: o significado do aprender. 5 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

 

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