Por que a investigação policial é lenta? O que dizem a polícia e o MP

Monitor da Violência: dois meses e meio depois, maioria dos casos está em aberto Novo levantamento feito pelo G1 mostra que os inquéritos de 761 dos 1.195 casos continuam em andamento. Em 27 casos, as investigações nem começaram. Dos 1.195 casos de morte violenta ocorridos de 21 a 27 de agosto no Brasil, 761 continuam […]

Por Editoria Delegados

Monitor da Violência: dois meses e meio depois, maioria dos casos está em aberto

Novo levantamento feito pelo G1 mostra que os inquéritos de 761 dos 1.195 casos continuam em andamento. Em 27 casos, as investigações nem começaram.

Dos 1.195 casos de morte violenta ocorridos de 21 a 27 de agosto no Brasil, 761 continuam com as investigações em aberto, o que representa 64% do total. Em 27 casos, os inquéritos não foram nem mesmo instaurados.

Monitor da Violência: dois meses e meio depois, maioria dos casos está em aberto

Quais são as principais causas da lentidão dessas investigações? O G1 conversou com delegados, investigadores e promotores de Justiça de várias partes do país durante a apuração do projeto para tentar entendê-las.

Falta de peritos e de investigadores

Mesmo em estados com delegacias especializadas, a investigação de boa parte dos homicídios fica a cargo de delegacias tradicionais. Nesses casos, não há necessariamente policiais especializados nem peritos. Além disso, o tempo dos profissionais é dividido com outras atividades e com a investigação de diferentes tipos de crime, como roubos, que ocorrem com mais frequência que os homicídios.

Os policiais também não dispõem de equipes específicas para preservar e analisar as cenas de crime e fazer a perícia completa nos locais. Em Campinas, no interior de São Paulo, por exemplo, o Instituto de Criminalística informou que não tem a quantidade necessária de peritos para atender a demanda de crimes da região.

Na Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro, cada caso exige o envio de, pelo menos, cinco carros da polícia, com o delegado, três peritos e agentes especializados para fazer a preservação da cena, a identificação e o contato com possíveis testemunhas. No grupo, sempre deve haver um perito criminal, um legista e um papiloscopista – responsável por coletar e analisar impressões digitais.

Grande volume de ocorrências

O grande volume de ocorrências também é apontado como um dos fatores que dificultam o andamento e a abertura dos inquéritos.

“Em um ano, na capital do Rio de Janeiro, nós temos 1.300 homicídios para serem apurados por 200 policiais. Eles têm 100 casos para 500 policiais”, afirma o delegado Rivaldo Barbosa, diretor da Divisão de Homicídios do Rio. “Nós temos a capacitação, temos pessoas especializadas. A gente precisava de mais pessoas dentro da Polícia Civil para poder dar uma resposta.”

No Rio Grande do Sul, o grande volume ainda foi uma das justificativas utilizadas pela delegada Carolina Jacob, da especializada em homicídios, para não poder informar os nomes completos das vítimas que seguiam sem identificação no estado.

Em Alagoas, ao ser questionada sobre o tempo das investigações, a direção da Polícia Civil diz que alguns casos apresentam mais facilidades para elucidação porque testemunhas e parentes colaboraram e foram encontrados vestígios e até filmagens. Porém, há casos que exigem uma dificuldade maior, pela carência de provas ou indícios para esclarecimento da autoria.

“Geralmente, leva-se de um a dois anos para a prisão dos indivíduos, que são indiciados e ficam com o mandado de prisão em aberto. No entanto, o que ocorre é que eles mudam a localidade que estavam no momento do crime em tentativa de fuga da captura. Assim, é normal alguns crimes apresentarem um tempo maior para o esclarecimento”, conta o delegado Fábio Costa.

Para o delegado Sérgio Belizário, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa de Belo Horizonte (MG), o andamento das investigações é prejudicado por falta de testemunhas dispostas a falar. Segundo ele, isso ocorre, principalmente, em áreas dominadas por criminosos por medo de represália.

“Infelizmente, nessas regiões, a lei do silêncio é imposta pelo crime, pelas gangues, pelos traficantes. As pessoas temem falar”, diz Belizário.

O delegado Torquato Mozer, adjunto da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), acrescenta ainda que encontra dificuldades em localizar testemunhas. Por isso, afirma Mozer, fica mais fácil solucionar os casos que envolvem brigas ou disputas familiares.

“Crimes que envolvem brigas ou disputas familiares são de uma solução muito mais fácil, pois todos os parentes sabem o que aconteceu. Em casos de homicídios, há dificuldade em encontrar pessoas que possam nos dar informações concretas sobre como o ocorreu, a motivação e outros fatores que ajudam a solucionar o crime”, afirma.

Infraestrutura precária

No Tocatins, a falta de infraestrutura e a desorganização chegaram a ser obstáculos para o prosseguimento das investigações. A delegacia de Crixás do Tocantins mudou de local, e os responsáveis ficaram sem conseguir acessar os arquivos que se referem aos crimes de 21 a 27 de agosto. O município fica a 165 km de Palmas, capital do estado.

A equipe do G1 tentou conseguir as atualizações sobre o caso em que o carvoeiro Gilberto Alves de Oliveira, de 54 anos, foi assassinado a tiros. O crime ocorreu em 25 de agosto. Apenas em 8 de novembro, a delegacia conseguiu os dados e informou que houve um preso em flagrante e que o inquérito foi concluído.

Metodologia de investigação ineficiente

De acordo com Arthur Trindade, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, professor da Universidade de Brasília e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal, a solução para a melhoria do desempenho policial é a reorganização da metodologia de investigação criminal.

“É necessário que a equipe de investigadores e peritos chegue o mais rápido possível ao local do crime para iniciar o trabalho. No DF, quem primeiro investiga o crime de homicídio são as delegacias circunscrevais, que já cuidam de todos outros tipos de crime, desde briga de cachorro a estelionato”, diz.

G1

DELEGADOS.com.br
Portal Nacional dos Delegados & Revista da Defesa Social

 

 

 

 

Veja mais

Ministério Público de Alagoas flagra inquéritos parados, falta de efetivo e até pragas em delegacia

(AL)Fiscalização no 22º Distrito Policial revela inquéritos parados, apenas 7 policiais no efetivo e pátio tomado pelo mato com carros se deteriorando

Vilma Alves: a vida da primeira delegada negra do Piauí

(PI) Conheça a história de pioneirismo da policial que comandou Delegacia da Mulher e foi primeira corregedora-geral da PC; Vilma morreu no último dia 18, aos 79 anos

Polícia Civil da Paraíba prende Guarda Civil de Parnamirim responsável por disparos de arma de fogo em casa de show

(PB) Guarda civil de Parnamirim é preso em João Pessoa após ser apontado como autor de disparos e tentativa de homicídio contra dois seguranças em uma casa de shows.

Mãe de morto ao tentar roubar delegado diz que perdeu filho para ostentação

(SP) Suspeito de tentar roubar um delegado e uma agente da Polícia Civil, Peterson de Oliveira morreu após ser baleado por um PM de folga que flagrou a ação. O

Campanha nacional amplia coleta de DNA para encontrar desaparecidos

Mobilização terá 342 postos de coleta em todo o país e busca cruzar material genético de familiares com perfis de pessoas encontradas sem identificação; saiba como participar

STF restringe porte de arma na Polícia Científica do Espírito Santo

A análise da matéria ocorreu no âmbito de uma ação apresentada pela Presidência da República e questionava o § 3º do artigo 126 da Constituição do Espírito Santo, incluído pela

Polícia Civil de Alagoas e Seplag convocam novos delegados para exame admissional

(AL) Candidatos nomeados devem comparecer à sede da Perícia Médica nesta terça-feira (25)
Veja mais

Segurança preso foi depor em delegacia pedalando bicicleta da vítima no Rio

MP POST240826 - (16)
"Abuso da audácia da sensação de impunidade"

Candidato a deputado Guilherme Pallesi ofende delegada de SP que não quis dar entrevista

24AGO26 -(1)
(SP) Sindpesp emite Nota de Repúdio contra o deputado Guilherme Pallesi

Delegada da Polícia Civil do Piauí, Vilma Alves, morre aos 79 anos

Vilma Alvas, Delegada da Polícia Civil do Piauí
(PI) Primeira mulher a integrar os quadros da Polícia Civil do Piauí, primeira delegada negra do estado, primeira mulher corregedora e primeira delegada da mulher do PI

STF amplia Lei Maria da Penha e até vizinho responderá por violência doméstica

20AGO26 -
A Corte ainda reconheceu expressamente que a proteção alcança casos de violência política de gênero, de competência da Justiça Eleitoral, e admitiu a concessão de medidas protetivas por delegados ou

99 prisões e R$ 547 mil apreendidos: Operação Cerco Fechado investigou homicidas, estupradores e outros criminosos

Luccy Keiko, Delegado-Geral da Polícia Civil do Piauí
(PI) Segundo o delegado-geral da PCPI, Luccy Keiko, a operação busca cumpriu 124 mandados de prisão e de busca e apreensão em todo o Piauí.

Pão de forma, enxaguante bucal, bombom de licor: novas regras, ‘álcool residual’ e a Lei Seca

18AGO26 -
Contran muda regras da Lei Seca e permite reteste do bafômetro e drogômetro

Delegado Tales Gomes é atacado por pitbull e esposa é assaltada em Teresina; dois bandidos são presos

Delegado dá detalhes sobre operação contra receptadores de fios de cobre furtados em Teresina — Foto: Arquivo pessoal / Polícia Civil
(PI) Investigações resultaram na prisão de criminosos. Pitbull estava escondido atrás de uma porta do alvo do mandado
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.