‘Nunca precisei gritar para ser respeitada’, diz delegada pioneira em SP

    Poucos exemplos ilustram tão bem a presença feminina em profissões originalmente masculinas quanto mulheres que ocupam cargos das áreas da segurança pública e da defesa nacional.   Enquanto o governo da presidente Dilma Rousseff negocia com o Exército formas de abrir, até 2017, as funções de combate às mulheres, elas já atuam há […]

Por Editoria Delegados

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Poucos exemplos ilustram tão bem a presença feminina em profissões originalmente masculinas quanto mulheres que ocupam cargos das áreas da segurança pública e da defesa nacional.

 

Enquanto o governo da presidente Dilma Rousseff negocia com o Exército formas de abrir, até 2017, as funções de combate às mulheres, elas já atuam há décadas na repressão ao crime nos diversos órgãos policiais do país.

 

Uma dessas policiais é a delegada Elisabete Ferreira Sato Lei – a primeira mulher a chegar ao cargo de diretora do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) da Polícia Civil de São Paulo. Ela ocupa a posição na cúpula da polícia há dez meses e também é professora da academia de polícia – onde leciona sobre situações de crise, com reféns.

 

Antes de chegar ao topo da hierarquia policial, Elisabete participou das investigações de boa parte dos assassinatos ocorridos no Estado, incluindo alguns que abalaram a opinião pública nos últimos anos.

 

Entre eles estão as mortes da menina Isabella Nardoni, da advogada Mércia Nakashima e da família de policiais, que segundo a polícia, foi chacinada pelo filho único Marcelo Pesseghini, de 13 anos – além de uma série de difíceis investigações sobre homicídios cometidos por policiais militares.

 

O cargo a coloca em uma posição complexa: guiar suas equipes de policiais em uma frente e, em outra, assumir a responsabilidade sobre os resultados das investigações perante a sociedade – tarefa especialmente delicada por envolver questões caras a qualquer um no poder: a credibilidade da polícia e a sensação de segurança da população.

 

Segundo seus colegas de trabalho, em 32 anos de polícia, ela ficou conhecida por seriedade e rigor. Reunida com seus principais delegados, seja em seu gabinete ou na tensa cena de um crime, não levanta a voz e pede a opinião de todos. Mas quando dá uma instrução, jamais precisa repeti-la.

 

Leia abaixo trechos de sua entrevista à BBC Brasil:

 

BBC Brasil – Você ainda vê traços de machismo ou preconceito em seus ambientes pessoal ou profissional?

 

Elisabete Sato – O preconceito ou o machismo subsistem em algumas partes da sociedade, e no Brasil não é diferente. No meu ambiente de trabalho, a vocação vem em primeiro lugar. Então, independente de você ser homem ou mulher, se é vocacionado para ser policial você o será.

 

Em outros ambientes ainda subsiste essa questão do machismo, do preconceito contra a mulher, principalmente em relação a colocar em dúvida se a mulher efetivamente é capaz.

 

A força física faz falta na polícia?

 

Estamos num tempo em que não faz tanta diferença. O que existe é o preparo para o policial, independente do sexo. Temos excelentes policiais atiradoras, temos excelentes policiais investigadores e o contrário também é verdadeiro, então hoje a força física não é levada tanto em consideração.

 

Nos casos das delegadas de polícia, temos uma equipe que trabalha conosco. Então se em alguma diligência houver a necessidade de (uso da) força física, a delegada pode determinar que os investigadores o façam.

 

Como a mulher da sua geração tem evoluído na sociedade atual?

 

Na geração da minha mãe a maioria das mulheres era de donas de casa. Elas eram educadas e preparadas para lavar, cozinhar, limpar a casa, cuidar da educação dos filhos. Hoje não – a mulher tem seu emprego, é empresária, é executiva, é policial, mas ela não deixou de exercer as outras atividades, do lar, por exemplo.

 

Eu sou casada, saio da delegacia e vou preparar o jantar. Então considero que o papel da mulher mudou bastante nos últimos anos.

 

Acha que seus poderes de escolha e de decisão aumentaram?

 

No cargo atual meu poder de decisão efetivamente aumentou. Decidir parece ser fácil, mas requer uma certa certeza ou um sentimento de que você está tomando a decisão correta. Só que a certeza absoluta é uma coisa inimaginável. E hoje, na sociedade, as decisões recaem muito sobre a mulher.

 

Eu dou um exemplo prático: um casal tem uma filha adolescente e ela pede ao pai que a leve em uma discoteca. O pai simplesmente lava as mãos e a mãe tem que decidir. Ela considera que a filha é jovem, vai a lugares onde se consome bebida alcoólica, pode ser vítima de um acidente de trânsito ou mesmo de um assalto.

 

Eu conheço várias histórias em que a mãe acaba dizendo sim, porque a filha ou o filho insiste muito. Isso é para exemplificar que muitas vezes se lava as mãos e se deixa as coisas acontecerem. Então decidir parece fácil, mas não é.

 

Quais principais fatores e características pessoais considera hoje que foram importantes em sua história?

 

Primeiro, a vontade que nós temos de que as coisas deem certo. Quem veio para o seio policial tem que ser legalista, respeitar os direitos humanos e a dignidade da pessoa. Mas uma das qualidades com a qual me identifico é a persistência.

 

Já passei por muitas situações emblemáticas, de pressão, mas o mais importante é você não perder o rumo, saber que você desempenha um papel importante dentro da sociedade e que que a polícia está aqui para servir.

 

Por mais que as pessoas queiram te denegrir, você mantém-se firme, olha para a frente. Estou seguindo meu caminho sem dor de consciência porque o que eu estou fazendo é correto.

 

Muitos problemas que a senhora enfrentou não se resolvem na força. A condição de mulher ajudou?

 

Nesses anos que tenho na carreira de delegada aprendi a lidar com as pessoas, com o ser humano, e não ver os policiais como seres invisíveis. São pessoas que têm os seus problemas, são profissionais de polícia que vieram dessa sociedade, vieram de educações diferentes, de lares diferentes. Então você respeita o homem acima do profissional.

 

Ter crises de autoridade é uma das coisas que eu particularmente critico muito. Tudo o que eu faço é na base do ‘por favor, vamos fazer isso’, ou ‘quero ouvir sua opinião’, ‘você acha que estamos corretos nessa investigação?’. É compartilhar. Tratando bem as pessoas você consegue todos os seus objetivos.

 

Eu nunca tive que gritar com policial que trabalhasse comigo, nem tive que pedir duas vezes a mesma coisa para o policial fazer. Porque eu sei que tenho a autoridade que o cargo me dá. Mas a vontade de trabalhar dos policiais é muito maior quando eles são respeitados.

 

Quando você respeita as pessoas, as pessoas te respeitam, eles vêm trabalhar com muito mais prazer. Eles sabem que podem brincar que eu não vou ficar brava, mas quando estivermos no exercício da atividade, em uma diligência, num interrogatório importante, é seriedade. Se você se consegue balancear tudo isso as coisas caminham com muito mais tranquilidade.

 

R7

 

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