Marco da Inteligência expõe racha entre PF e Abin

Projeto pode violar direitos fundamentais e ter conflitos de competências entre os órgão

Por Editoria Delegados

A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e a Polícia Federal têm posições contrárias em relação ao Projeto de Lei 6.423 de 2025, que estabelece um novo marco para as atividades de inteligência no Brasil. Enquanto a Abin considera que o texto pode ampliar sua capacidade de relatar informações estratégicas e promover segurança aos seus funcionários, a PF diz que pode violar direitos fundamentais e ter conflitos de competências entre os órgãos.

Relatado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), o projeto foi retirado da pauta em diferentes ocasiões. Isso porque, além de os congressistas pedirem mais tempo de discussão, o PL enfrenta resistência de integrantes da Casa Civil. Parte do governo ainda tem ressalvas em relação à ampliação das atribuições dos órgãos de inteligência.

Trad e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AM), fecharam acordo para incluir o projeto na pauta na 2ª semana de esforço concentrado, entre os dias 31 de agosto e 4 de setembro. Pessoas que acompanharam a construção da proposta avaliam que o projeto não será votado neste ano.

O projeto regulamenta a atuação da Abin, da PF e de outros órgãos federais e cria regras para o acesso a dados, emprego de técnicas sigilosas e proteção dos servidores da área.

Atualmente, a atividade de inteligência é regulamentada principalmente pela Lei 9.883 de 1999, que criou o Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) e a Abin. A legislação, porém, não detalha procedimentos operacionais, técnicas de inteligência, mecanismos de controle e garantias para os profissionais da área. O projeto busca preencher parte dessas lacunas.

A proposta foi apresentada à Casa Civil em agosto de 2025 e, no mês seguinte, encaminhada à CCAI (Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência). Até então, a proposta está travada no Senado.

SEGURANÇA PARA SERVIDORES

O projeto é considerado “essencial para a segurança dos servidores” por integrantes da área de inteligência, pois as diretrizes e os limites legais estariam bem definidas e, consequentemente, os funcionários estariam mais seguros para exercer suas funções.

Entre os principais pontos está a possibilidade de monitoramento da localização de pessoas por meio de celulares, desde que haja autorização judicial; e o uso de identidade fictícia por agentes de inteligência em operações sensíveis.

A defesa da aprovação do projeto também enquanto há críticas sobre a estrutura da Abin. Segundo integrantes da área, cerca de 80% dos cargos do órgão estão vagos. Outro fator citado é o impacto do caso conhecido como “Abin Paralela”, investigação que apura o uso indevido da agência para fins políticos durante o governo anterior. Cerca de 10% dos servidores foram demitidos depois do episódio.

Na visão das pessoas do setor, um dos fatores mostrados como parte da resistência do governo é o histórico da Abin e de seus antecessores durante a ditadura militar, quando estruturas de inteligência foram utilizadas como instrumento de repressão política. Integrantes da área, porém, argumentam que a inteligência atua de forma diferente da segurança pública e da investigação policial.

A avaliação é que a atividade de inteligência tem caráter preventivo e de prospecção de oportunidades, com foco na análise de fenômenos e cenários, enquanto órgãos como a PF atuam diretamente na investigação de pessoas e crimes. Segundo interlocutores envolvidos nas discussões, parte do governo ainda desconhece as competências e a forma de atuação dos órgãos de inteligência.

VIOLAÇÃO DE DIREITOS

O presidente da ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal), Edvanir Paiva, afirmou que o projeto é inconstitucional e que mais confunde do que organiza as atividades de inteligência, resultando em conflitos de competências. Disse que as atribuições de cada órgão precisam estar bem definidas para evitar “concorrência, desentendimento e desorganização”.

“Do ponto de vista do relacionamento das instituições, elas devem ter, no modelo correto, suas atribuições muito bem definidas e a colaboração entre os órgãos. O projeto, do jeito que está, possibilita que a Abin, ou outros órgãos de inteligência, passem a exercer as atividades que a Polícia Federal exerce”, afirmou.

Paiva disse que o projeto “traz poderes que são próprios da investigação criminal para as atividades de inteligência”. Segundo ele, “atividade de inteligência é uma coisa, persecução penal é outra totalmente diferente”.

Segundo o presidente da ADPF, a proposta também poderia permitir que a Abin atuasse em investigações de crimes como terrorismo e contra o crime organizado, o que é um risco de sobreposição de atribuições na visão dele. “Se a Abin for autorizada a pedir medidas excepcionais e invasivas em uma questão de crime organizado, isso quer dizer que ela pode fazer investigação de crime organizado. Na prática, é isso”, declarou.

Outro ponto de preocupação é o monitoramento por meio de celulares. O presidente da ADPF critica a possibilidade de o projeto permitir o uso de ferramentas que, segundo ele, podem ir além do rastreamento de localização e abrir margem para a interceptação de comunicações.

Ao analisar a definição de monitoramento remoto estabelecida no texto, afirmou: “Isso aqui é interceptação de comunicações”. Para Paiva, a utilização desses mecanismos fora de uma investigação criminal representa risco às liberdades individuais.

Questionado se há a possibilidade de votar o projeto neste ano, o presidente respondeu: “Espero que o projeto não seja votado nunca, esse projeto é ruim”.

DEFESA DA SOBERANIA

Defensores do projeto argumentam que a aprovação ganhou importância diante do cenário de disputas geopolíticas e de possíveis interferências estrangeiras no Brasil.

A avaliação é de que o fortalecimento da inteligência faz parte da chamada defesa não cinética, baseada na capacidade de o Estado antecipar riscos, identificar ameaças e proteger informações estratégicas sem o emprego direto de força militar.

Para integrantes da inteligência, o cenário reforça a necessidade de o país ampliar sua capacidade de produzir informações estratégicas e proteger sua soberania. Para eles a aprovação do projeto faria com que o Brasil estivesse mais bem preparado para uma possível interferência norte-americana.

Paiva concorda que o projeto pode ser usado para proteger a soberania e atender ao interesse público, mas também abre margem para abusos e invasões de atribuições entre órgãos.

O QUE DIZ O PROJETO

Atualmente, a atividade de inteligência é regulamentada principalmente pela Lei 9.883 de 1999, que criou o Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) e a Abin. A legislação, porém, não detalha procedimentos operacionais, técnicas de inteligência, mecanismos de controle e garantias para os profissionais da área.

O PL 6.423 busca preencher parte dessas lacunas e estabelecer regras para a atuação dos órgãos federais de inteligência. Entre os principais pontos estão:

  • cria um marco geral para as atividades de inteligência no Brasil;
  • regulamenta a atuação de órgãos federais de inteligência, incluindo Abin e PF;
  • estabelece regras para o acesso a dados e informações;
  • regulamenta técnicas sigilosas e operações de inteligência;
  • permite o monitoramento de localização por meio de celular mediante autorização judicial;
  • elimina a retenção obrigatória de registros de internet por 5 anos;
  • condiciona o acesso a determinados registros à autorização judicial prévia;
  • proíbe o uso da inteligência para fins eleitorais;
  • impede que convicções políticas, religiosas ou ideológicas, isoladamente, fundamentem ações de inteligência;
  • estabelece mecanismos de segurança, controle e auditoria;
  • cria medidas para proteger a identidade e a segurança dos profissionais de inteligência;
  • regulamenta aspectos da inteligência militar.

A matéria foi incluída na pauta do Senado em diferentes momentos ao longo de 2026, mas acabou retirada das sessões. Em 8 de julho, por exemplo, o projeto foi novamente retirado da pauta.

DELEGADOS
Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

Advogado é preso após filmar pernas de guarda municipal em supermercado

(PI) Um advogado foi preso sob suspeita de importunação sexual. O homem teria filmado, com um telefone celular, as pernas de uma guarda municipal no supermercado Pão de Açúcar, na

Ministro André Mendonça afasta Andrei Rodrigues da chefia da Polícia Federal

Ministro do STF diz que 'há mais de 30 dias tem sido monitorado pela Polícia Federal' e submete decisão para análise da Segunda Turma

Uso de algemas em advogado no ‘exercício da advocacia’: decisões jurídicas policiais adotadas

Tipicidade, metodologia de abordagem, itinerário de atos, captura, uso de algemas, condução e autuação

Piauí completa quatro meses consecutivos sem registros de latrocínio

(PI) Dados da Segurança Pública apontam redução contínua nos últimos três anos

Aviator online: como a regulação brasileira enquadrou os crash games e o que isso muda para o jogador

Em 2026, com mais de 25 mil URLs de plataformas bloqueadas pelo SPA e 550 contas bancárias encerradas, o mercado regulado tem ferramentas reais para fazer cumprir essas garantias, e

Promotor de justiça abandona apurações de concursos por temer pistolagem, CV e PCC

(AL) Titular da 17ª Promotoria de Justiça da Capital/Fazenda Pública Estadual, Coaracy é um nome conhecido no estado porque foi Procurador-Geral de Justiça de Alagoas entre 2005 e 2008.

Designer cria camisa capaz de ‘esconder’ pessoas de câmeras de vigilância com IA

'Camisa havaiana mais feia já vista no planeta' de Simon Weckert impede que tecnologia identifique o usuário como um 'ser humano padrão'
Veja mais

Ministério Público de SC arquiva caso de policial que matou detenta dentro de viatura para salvar colega enforcada

MP POST270826 -
(SC) Investigação e perícia concluíram que agente disparou contra presa em legítima defesa para salvar motorista que estava sendo sufocada com algemas.

“Mãe te avisou”: mulher lamenta morte de filho após roubar delegado

(SP) Nas redes sociais, a mãe do jovem diz que sempre batalhou e ensinou os caminhos certos, mas acabou perdendo o filho para a ostentação

Advogado de acusada de integrar o PCC é investigado por suposta ameaça de morte a juiz durante audiência

MP POST260826 - (3)
(SP) Marcos Cebola citou um delegado executado, disse temer que o magistrado não “adentrasse ao Elísio” e afirmou que todos morreriam; ele nega ter feito ameaça

Polícia prende suspeitos de roubo a residências e a depósito de gás em João Pessoa

MP POST260826 -
(PB) De acordo com a Polícia Civil, dos três alvos de mandados de prisão, um já cumpria pena na Penitenciária Silvio Porto. Há ainda dois suspeitos considerados foragidos.

Mulher é detida após dar tapa no rosto de policial durante briga em Barretos

Mulher dá tapa no rosto de Policial Militar(SP) em festa de Barretos e é detida
(SP) Confusão entre duas mulheres terminou com agressão a uma policial militar durante intervenção da PM no evento

Abordagem policial ao advogado no ‘exercício da advocacia’: decisões jurídicas policiais adotadas

Tipicidade, metodologia de abordagem, itinerário de atos, captura e autuação

Adolescente “dá grau” e ainda bate em viatura policial de MG; ignorância audaciosa

MP POST250826 - (7)
(MG) Jovem de 17 anos foi flagrado empinando motocicleta e tentou fugir da abordagem; episódio foi registrado em Caraí (MG)
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.