‘Desembarque criminoso ou de conveniência’, por Por Rafael Potsch Andreata

      É cediço que o instituto do refúgio é de suma importância para afirmar o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Diversos países do mundo, sendo o Brasil um deles, são signatários de tratados e convenções sobre o tema, que aplicado de forma correta e segura irá resguardar situações emergenciais a justificar a […]

Por Editoria Delegados

 

 

 

É cediço que o instituto do refúgio é de suma importância para afirmar o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Diversos países do mundo, sendo o Brasil um deles, são signatários de tratados e convenções sobre o tema, que aplicado de forma correta e segura irá resguardar situações emergenciais a justificar a sua concessão.

 

No Brasil, o instituto está previsto na Lei 9.474/97. Esta lei define mecanismos para a implantação do Estatuto dos Refugiados das Nações Unidas de 1951 e de seu Protocolo de 1967, determinando outras providências que deverão ser adotadas pelo Estado brasileiro quando o assunto é refúgio. Além disso, ela cria o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare).

 

O artigo 1º da Lei 9.474/97 reconhece como refugiado todo indivíduo que:

 I — devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;
II — não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;
 III — devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.

 

Ocorre que as hipóteses previstas na lei de concessão do benefício só serão analisadas posteriormente quando da entrada dos estrangeiros em território nacional. Com isto, as autoridades migratórias brasileiras dos aeroportos, caso o pedido de refúgio ocorra naqueles ambientes, ficam impossibilitadas de emitir juízo de valor acerca do desembarque do passageiro que anunciar tal requerimento.

 

A situação acima mencionada gera uma vulnerabilidade nas fronteiras brasileiras, pois muitas das vezes os estrangeiros acabam por inutilizar os passaportes durante os voos e já desembarcam solicitando o refúgio, quando então só restarão as referidas autoridades o encaminhamento dos requerentes aos organismos responsáveis pelo abrigo dessas pessoas até decisão final do Conare.

 

No Rio de Janeiro, o organismo responsável pela custódia dos estrangeiros postulantes é a Caritas Arquiodiocesana, pertencente à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), instituição séria e pioneira na assistência a refugiados no país.

 

Não se quer aqui acabar com a concessão do refúgio, mas conter a entrada de pessoas que possam se valer da má-fé para ingressar em território nacional e aqui cometerem crimes, valendo-se da condição de refugiado sem fazer jus ao benefício.

 

A única exigência legal para entrada dos passageiros é a tomada de declarações dos mesmos pela autoridade policial dos aeroportos segundo dispõe o artigo 9º da lei, pois o impedimento previsto no parágrafo 2º do artigo 7º, não poderá ser analisado em curto prazo e nem dentro das dependências do aeródromo, o que acaba por permitir que o alienígena ingresse em território nacional muitas das vezes sem os dados qualificativos quanto a sua pessoa, já que muitos permanecem em silêncio ou acabam por fazer declarações falsas para entrar no país.

 

A tramitação do procedimento para análise do refúgio é demorada e com isso os estrangeiros permanecem no país livres até a decisão final do requerimento, podendo cometer crimes e desaparecerem.

 

A situação se torna mais problemática ainda quando o refúgio não é deferido pelo Conare, pois com o fim da prisão administrativa para deportação a partir da revogação expressa do artigo 319 do CPP pela Lei 12.403/2011, o estrangeiro dificilmente consegue ser localizado, salvo se aparecer voluntariamente para retornar ao seu país, fato este que raramente irá ocorrer.

 

O desembarque compulsório daquele que solicita o benefício nos aeroportos conforme parece sugerir a lei, não nos parece o procedimento mais apropriado, tendo em vista os argumentos já expostos, ainda mais num período em que o Brasil sediará grandes eventos, pois se a solicitação for usada de maneira irregular por pessoas ligadas ao terrorismo ou a grupos mafiosos poderá colocar o país em risco permanente.

 

Por fim, entendemos que qualquer pedido de refúgio nas áreas restritas dos aeroportos deve ser devidamente analisado com cuidado pelas autoridades migratórias da Polícia Federal devendo o desembarque ficar condicionado à identificação prévia dos estrangeiros e avaliação de situação real de refúgio a fim de evitar além do perigo no ingresso de pessoas indesejáveis, também o chamado “refúgio de conveniência” daqueles que querem desembarcar sem o devido visto consular alegando condição inexistente.

 

Por Rafael Potsch Andreata

 

DELEGADOS.com.br
Revista da Defesa Social & Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

Fachin suspende decisões de Mendonça e Dino sobre direção da PF

Fachin suspende decisão de Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da PF e decisão de Dino que reintegrou diretor

Salário de agente, escrivão e investigador não pode ficar vinculado ao de delegado, decide STF

Supremo invalida vinculação da remuneração de policiais civis à de delegados de Polícia Civil

Dino determina reintegração de diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues

Flávio Dino reverte afastamento de cúpula da PF, critica 'decisão em causa própria' e aponta risco a investigações do caso 'Dark Horse'

Fenadepol e ADPF divulgam notas de repúdio após afastamento de dirigentes da Polícia Federal

Entidades Federais defenderam a preservação das prerrogativas institucionais do órgão

11 Diretores da Polícia Federal apoiam Andrei Rodrigues e entregam cargos

O pedido de vista não derruba a liminar de André Mendonça, que continua valendo. Com o afastamento de Andrei, o diretor-executivo da PF, William Murad, deve ficar interinamente na chefia

Advogado é preso após filmar pernas de guarda municipal em supermercado

(PI) Um advogado foi preso sob suspeita de importunação sexual. O homem teria filmado, com um telefone celular, as pernas de uma guarda municipal no supermercado Pão de Açúcar, na

Ministro André Mendonça afasta Andrei Rodrigues da chefia da Polícia Federal

Ministro do STF diz que 'há mais de 30 dias tem sido monitorado pela Polícia Federal' e submete decisão para análise da Segunda Turma
Veja mais

Uso de algemas em advogado no ‘exercício da advocacia’: decisões jurídicas policiais adotadas

Tipicidade, metodologia de abordagem, itinerário de atos, captura, uso de algemas, condução e autuação

Piauí completa quatro meses consecutivos sem registros de latrocínio

02SET26 -
(PI) Dados da Segurança Pública apontam redução contínua nos últimos três anos

Aviator online: como a regulação brasileira enquadrou os crash games e o que isso muda para o jogador

01SET26 -
Em 2026, com mais de 25 mil URLs de plataformas bloqueadas pelo SPA e 550 contas bancárias encerradas, o mercado regulado tem ferramentas reais para fazer cumprir essas garantias, e

Promotor de justiça abandona apurações de concursos por temer pistolagem, CV e PCC

Promotor Coaracy (direita) é um nome conhecido no estado porque foi procurador-Geral de Justiça de Alagoas
(AL) Titular da 17ª Promotoria de Justiça da Capital/Fazenda Pública Estadual, Coaracy é um nome conhecido no estado porque foi Procurador-Geral de Justiça de Alagoas entre 2005 e 2008.

Designer cria camisa capaz de ‘esconder’ pessoas de câmeras de vigilância com IA

Designer Simon Weckert criou camisa capaz de esconder pessoas de câmeras de vigilância com IA
'Camisa havaiana mais feia já vista no planeta' de Simon Weckert impede que tecnologia identifique o usuário como um 'ser humano padrão'

Ministério Público de SC arquiva caso de policial que matou detenta dentro de viatura para salvar colega enforcada

MP POST270826 -
(SC) Investigação e perícia concluíram que agente disparou contra presa em legítima defesa para salvar motorista que estava sendo sufocada com algemas.

“Mãe te avisou”: mulher lamenta morte de filho após roubar delegado

(SP) Nas redes sociais, a mãe do jovem diz que sempre batalhou e ensinou os caminhos certos, mas acabou perdendo o filho para a ostentação
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.