A cláusula de morte que o policial jamais assinou

Omissão do Estado custa a vida de policiais e exige resposta imediata

Por Editoria Delegados

Por Raquel Gallinati*

A função policial é, por essência, altamente complexa. Exige eficiência, bem como coragem de quem se dispõe a enfrentar diariamente as situações mais críticas da sociedade. No entanto, o que deveria ser reconhecido como um serviço público essencial vem sendo tratado, de forma silenciosa, como se fosse uma atividade com uma cláusula implícita de morte.

É como se, ao escolher a carreira, o policial aceitasse previamente uma margem “tolerável” de letalidade, o que não pode ser naturalizado.

A condição de ser policial carrega um binômio difícil: ao combater o crime, ele também se expõe como uma de suas primeiras vítimas. Tal risco não se limita ao período em serviço, mas se estende às horas de folga, afinal, o agente da lei é considerado policial em tempo integral. A legislação lhe impõe o dever de agir ao se deparar com ilícitos, enquanto a sociedade deposita nele a expectativa de disponibilidade absoluta.

Essa exigência de dedicação permanente contrasta com a ausência de um marco normativo que ofereça proteção diferenciada.

Embora os crimes contra policiais se encaixem em tipos penais genéricos — homicídios, latrocínios, atentados —, as circunstâncias e motivações que envolvem tais ocorrências raramente recebem tratamento jurídico específico. O resultado é a perpetuação de um paradoxo: exige-se que o policial esteja sempre pronto a intervir, mas não se garante a ele o mínimo de proteção compatível com essa exposição.

Na criminalidade brasileira, cada vez mais violenta e estratégica, o policial se transforma em alvo qualificado. Não se trata apenas de risco colateral. Muitos ataques são premeditados, como retaliação à sua função. O espaço de trabalho do policial — a rua, a comunidade, o cotidiano social — confunde-se com o espaço em que ele próprio é vitimado. Uma realidade que agrava a sensação de vulnerabilidade e expõe a falha estrutural de um Estado que cobra presença, mas não assegura condições de sobrevivência a seus agentes.

Preservar a vida dos profissionais de segurança pública não é um favor, mas um dever do Estado. Isso exige medidas preventivas, protocolos claros e, sobretudo, legislação específica que reconheça a singularidade da carreira policial e seus riscos. Não se pode aceitar que a morte de policiais seja tratada como mero efeito colateral de sua atuação, como se fizesse parte de um contrato tácito assumido ao vestir a farda ou portar uma insígnia.

Antes de ser policial, ele é cidadão. Filho, filha, pai ou mãe. Servidor que atua em nome da coletividade, mas que não pode ser reduzido à condição de número em estatísticas de violência. Reconhecer sua vulnerabilidade e assegurar-lhe proteção efetiva é reafirmar que, em um Estado Democrático de Direito, a defesa da vida deve ser princípio inegociável — inclusive, e sobretudo, a vida daqueles que a dedicam diariamente a proteger a sociedade.

*Raquel Gallinati é diretora da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) do Brasil e mestre em Filosofia

DELEGADOS
Portal Nacional dos Delegados

Veja mais

Acesso de policial a celular antes de perícia não invalida prova, decide STJ

6ª turma destacou que o acesso policial prévio ao aparelho não comprova adulteração dos dados nem gera nulidade automática das provas obtidas.

Candidato com nanismo é eliminado de concurso para delegado após teste de aptidão física

(MG) Polícia Civil de MG afirma que o cargo de Delegado de Polícia, por sua natureza, exige o pleno desempenho de atividades inerentes ao policiamento, investigação e cumprimento de ordens

Policiais Civis do DF passam a ganhar folga no dia do aniversário

(DF) Portaria foi publicada nesta terça (10/3) no DODF. Para que o servidor seja contemplado com o benefício, deverá atender a alguns critérios

Delegada denuncia assédio do Secretário de Segurança Pública do Maranhão

(MA) Delegada Viviane Fontenelle relatou ter sido vítima de assédio em reunião com o secretário de Segurança do MA: “Delegata”. Adepol pede investigação

ADPF comunica mobilização nacional em defesa do encaminhamento do FUNCOC

ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal) informa nova fase na Mobilização Nacional

I Congresso Nacional de Delegadas do Brasil “No Combate à Violência conta a Mulher”

Iniciativa da Adepol do Brasil reúne delegadas para debater estratégias, desafios e avanços, além de apresentar carta nacional com propostas institucionais

OAB ‘suspende’ advogado que foi preso após prejudicar trabalho de policiais em delegacia do DF

(DF) Advogado acumula 14 inquéritos policiais, 9 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e duas condenações judiciais, uma delas por estupro
Veja mais

Jean Nunes e Chico Lucas reforçam protagonismo na articulação pela PEC da Segurança Pública e fortalecimento do SUSP

Jean Nunes, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública e Chico Lucas, Secretário Nacional da Segurança Pública
Em agenda institucional, o presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Segurança e o Secretário Nacional da Segurança Pública evidenciam cooperação federativa, defenderam integração entre entes e destacaram estratégias conjuntas

Advogado que “estuprava” e “defecava” nas vítimas é preso após prejudicar trabalho de policiais na delegacia

(DF) Advogado acumula 14 inquéritos policiais, 9 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e duas condenações judiciais, uma delas por estupro

Secretário Nacional de Segurança Publica reforça compromisso de acabar com a impunidade e o crime organizado no Brasil

PEC fortalece a integração entre União, estados e municípios e garante financiamento para o enfrentamento da criminalidade

Governador do Piauí comemora aprovação da PEC da Segurança Pública na Câmara dos Deputados

(PI) A proposta visa melhorar a integração dos órgãos de segurança do país e garantir mais recursos para o setor.

Tudo o que você precisa saber sobre o Flagman Casino

O conjunto cobre usabilidade, segurança, pagamentos e ritmo de promoções, fornecendo um recorte prático para decisões de cadastro

Campanha do Sindicato dos Delegados escancara sucateamento da Polícia Civil e promessas não cumpridas de Tarcísio

(SP) Movimento teve início nessa terça-feira (24/2), em diversas cidades do interior paulista; com direito a outdoors espalhados nas principais vias do estado e ofensiva digital, Sindpesp fala em baixos

Por que a morte de líderes do crime organizado raramente desmantela suas estruturas?

Delegada Raquel Gallinati (diretora da Adepol do Brasil) e Delegado Rodolfo Laterza (presidente da Adepol do Brasil)
Por Raquel Gallinati e Rodolfo Laterza
Veja mais

Não é possível copiar este conteúdo.