Conheça o laboratório de SP que acabou com ‘a festa da maconha líquida’

SP: Agito, ferveção, vibração, feixes de luz e drogas, muitas drogas, chegando de todos os lugares possíveis. Agito, ferveção, vibração, feixes de luz e drogas, muitas drogas, chegando de todos os lugares possíveis. Bem que esse poderia ser o relato de uma festa cheia de junkies. Mas não viaja: esses são alguns dos processos para […]

Por Editoria Delegados

SP: Agito, ferveção, vibração, feixes de luz e drogas, muitas drogas, chegando de todos os lugares possíveis.

Agito, ferveção, vibração, feixes de luz e drogas, muitas drogas, chegando de todos os lugares possíveis. Bem que esse poderia ser o relato de uma festa cheia de junkies. Mas não viaja: esses são alguns dos processos para identificar substâncias narcóticas (inclusive as ainda não catalogadas no país) dentro do laboratório de toxicologia da Polícia Científica de São Paulo.

Tijolos de maconha, pedras de crack, pinos de cocaína, tubos de skank, seringas de haxixe, comprimidos de MDMA, selos de LSD, cristais de metanfetamina e muitos micropontos que podem conter alguma recentíssima molécula sintética. Passa de tudo pelos aparelhos de alta tecnologia de lá. Eles ajudam a detectar as novas drogas circulando pelo Brasil. “É um jogo de gato e rato, mas agora os criminosos não escapam mais por falta de identificação no laboratório e na lei”, sintetiza Júlio Ponce, diretor do núcleo de exames de entorpecentes do Instituto de Criminalística.

O mercado de maconha líquida explodiu na pandemia com a proibição de visitas aos detentos. Era preciso desbaratar o esquema que fabricava e borrifava os canabinoides em papéis que viravam cartas, fotos e embalagem de encomendas enviadas para os presídios.

Graças aos cromatógrafos a gás hélio e aos equipamentos de espectroscopia de luz infravermelha, foi possível prender a quadrilha ligada à facção PCC que distribuía nas prisões o K4, tóxico artificial com efeito até 100 vezes mais forte que a erva natural.

Agora, a ideia é unir esforços com universidades como a USP (Universidade de São Paulo) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que contam com caríssimos aparelhos de ressonância magnética nuclear (custam mais de US$ 1 milhão e tem manutenção dispendiosa). Essa parceria fecha ainda mais o cerco às chamadas “designer drugs”, narcóticos criados em laboratório clandestinos com fórmulas químicas que tentam driblar as leis.

Plantão de canos e pipetas

É um laboratório bem peculiar. Embaixo de jalecos brancos de cientista se percebe um volume extra perto da cintura: um revólver. Os técnicos ali têm diplomas de química, farmácia e biologia, mas também são policiais.

Dificilmente um viajandão ou aviãozinho se aventuraria por ali. Policiais civis e militares entram e saem constantemente dali, dia e noite, com carregamentos e amostras. Tudo é analisado, mas nada fica ali armazenado.

Júlio Ponce, diretor do núcleo de exames de entorpecentes da Polícia Científica de São Paulo,
posa ao lado do cromatógrafo usado para separar componentes químicos das amostras
Imagem: Flávio Florido/UOL

Em 2020 foram mais de 25 mil testes, o que deu a média de 70 laudos emitidos por dia. No início de uma tarde chegaram nove diligências diferentes. Da zona norte veio uma carga de uma tonelada de maconha prensada para ser desembalada, pesada e analisada. Da zona leste chegou uma apreensão com nove drogas diferentes para serem classificadas.

O laboratório não fecha nunca — o espaço original dele entrou em reforma em março, e os equipamentos foram transferidos para o antigo almoxarifado, sem ficar uma hora sem funcionar. Tudo para garantir que cada flagrante saia em menos de 24 horas.

Parece até gincana, mas alguns laudos ficam prontos em menos de uma hora — a média é de três horas, dependendo de tamanho e variedade das drogas apreendidas. “A gente tem que correr para entregar dezenas de laudos por dia e não tem tempo para fazer pesquisa. É muita cobrança. Mas a associação com as universidades vai ajudar a gente nisso”, relata Ponce.

A rainha da maconha líquida

O diretor do laboratório teve uma sensação de bem-estar, felicidade e dever cumprido quando garantiu a detenção da quadrilha que traficava o K4 dentro do sistema prisional, em agosto de 2020.

Esse canabinoide foi identificado pela primeira vez em 2011 nos EUA, e começou a circular no Brasil em 2017. O grupo de São Bernardo do Campo, liderado por uma mulher, tinha sido preso, mas contava com a soltura porque o K4 não estava previsto nas leis como substância ilícita. Uma regra nova e o laudo emitido graças aos aparelhos importados dos Estados Unidos saíram a tempo de mantê-los detidos.

A chamada “guerra às drogas” ganhou novo capítulo no final da década de 1980 com o surgimento das substâncias sintéticas. Traficantes não precisavam mais fugir da polícia em florestas, fronteiras e rios. Agora evitam os controles com oficinas escondidas e processos químicos refinados: por ano surgem cerca de 100 novas drogas, criando e combinando moléculas para reproduzir ou amplificar os efeitos das substâncias originais.

Primeiro foram os derivados do ópio (os chamados opioides, que imitam o baque da morfina, heroína etc). Depois entraram os esteroides, endereçados a atletas que recorriam ao doping para conquistar recordes profissionais. Na última década foi a vez dos canabinoides entrarem na jogada — hoje estão registrados mais de 200 tipos.

Até entorpecentes tradicionais mudaram suas fórmulas. “O lança-perfume de hoje é diferente da substância usada dez anos atrás. O LSD também é outro e não precisa do precursor natural, que é um cogumelo. As fórmulas vão mudando, seja pelas preferências dos consumidores, seja por restrições legais para conseguir os materiais necessários para a fabricação das drogas”, conta Ponce.


Aparelhagem turbinada

O braço se estica, perfura com uma seringa a tampa do frasco e puxa o tóxico. Desbaratina: não é um viciado atrás do pico de alívio e delírio. É só o braço robótico do cromatógrafo de última geração que vai desvendar todas as substâncias presentes em uma ervinha que mais parece camomila.

Antes o matinho seco foi diluído em solvente (o mais usado é metanol), para dispersar suas propriedades secretas, e rodado em uma centrífuga. O líquido resultante vai parar na entrada do cromatógrafo, que está a uma temperatura de 280°C. Dentro do aparelho há um forno e um caninho com espessura de um fio de cabelo e extensão de 30 metros, onde se separam todos os elementos misturados em cada droga.


Na tela do aparelho vão aparecendo as moléculas. Primeiro surgem no gráfico digital os inocentes mentol e eucaliptol, para depois se achar o que se procura: canabinoides de nomes tão complicados como ADB-butinaca ou MDMB-fubinaca. Eles foram aspergidos ali pelos traficantes para turbinar o que seria um simples chazinho.

Em outro exame, um pó que parecia cocaína pura pelo brilho perolado se revela uma mescla de pó de mármore, purpurina, cafeína e lidocaína (anestésico).

O aparelho de espectroscopia por infravermelho, comprado por R$ 300 mil, elucida a estrutura das moléculas a partir da vibração dos átomos presentes nela quando passa o feixe de luz. Há poucos aparelhos como esse no país, alguns deles estão na Polícia Federal.

Química para a vida

O projeto Inspeqt (Investigação de Novas Substâncias Psicoativas em Química e Toxicologia Forense) foi anunciado agora em maio e vai reunir universidades e órgãos policiais para estudar as drogas sintéticas, que hoje são mais de mil descritas em todo o mundo.

Peritos e pesquisadores vão estudar os efeitos desses tóxicos e tipificá-los de forma mais rápida e detalhada para que entrem prontamente como ilícitos na legislação brasileira. O projeto também vai ajudar a detectar quando um paciente estiver afetado por esses narcóticos, porque eles não aparecem em exames toxicológicos de rotina.

Um dos desafios vai ser levar essas drogas para as faculdades, afinal o transporte e armazenamento desses tóxicos vão precisar de autorização judicial. “A universidade tem interesse, porque sem a polícia não teriam acesso a esse material. E a perícia se beneficia porque não tem tempo de estudar a fundo essas substâncias”, argumenta Ponce.

Para ele, o projeto vai dar rapidez a um trabalho “juridicamente perfeito” e “cientificamente rigoroso”, além de criar conhecimento entre os profissionais da área.

No laboratório policial, a droga vem embalada em bolsas com lacres, numerações e carimbos, para garantir a “cadeia de custódia da prova”, mas também a cadeia para os envolvidos nos crimes.

Como dizem os peritos, a química não mente. Mas também é verdade que só estamos vivos graças a uma sequência de reações químicas em nossos corpos. Alguns acrescentam nessa receita substâncias proibidas para ter sensações e visões que a rotina e o metabolismo não permitem. A vida não passa de um fenômeno químico, como os baratos e as ressacas.

 

UOL

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