Vazamento de ‘nudes’ é crime virtual mais comum no Rio, diz delegado Thiers

RJ: Mulheres são mais de 80% das vítimas do vazamento de imagens íntimas Os casos de vazamento de imagens íntimas, popularmente conhecidas como “nudes”, sem autorização das pessoas que aparecem nas imagens, ganham cada vez mais espaço. É o que afirma o delegado titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DCRI) do Rio, Alessandro […]

Por Editoria Delegados

RJ: Mulheres são mais de 80% das vítimas do vazamento de imagens íntimas

Os casos de vazamento de imagens íntimas, popularmente conhecidas como “nudes”, sem autorização das pessoas que aparecem nas imagens, ganham cada vez mais espaço. É o que afirma o delegado titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DCRI) do Rio, Alessandro Thiers.

“Em primeiro lugar, com ampla vantagem, nós temos os crimes de vazamento de fotos e vídeos íntimos, com pessoas ofendidas na sua honra. Depois, temos a pedofilia, que as pessoas infelizmente botam bastante na internet. Em terceiro lugar, temos as fraudes financeiras, de uma forma geral. Em quarto lugar, nós temos os crimes de apologia: a atos criminosos, homofobia, racismo, intolerância religiosa”, enumera Alessandro Thiers, sem revelar os números de casos registrados.

Dados da ONG Safernet, entidade que monitora crimes e violações dos direitos humanos na internet, mostram que no ano passado foi registrado o maior número de casos de vazamentos de fotos e vídeos íntimos contra a vontade das pessoas expostas. Em 2014, a ONG recebeu a notificação de 224 casos do tipo, contra 101 em 2013. Os números são de âmbito nacional.

Mulheres são as principais vítimas

As mulheres, segundo o delegado, são os principais alvos de vazamentos de fotos e vídeos íntimos no Rio. “As mulheres são as maiores vítimas desse tipo de crime [chamados de pornografia de vingança]”, disse o delegado Alessandro Thiers.

Delegado Alessandro Thiers é o responsável pela investigação do caso da atriz Taís Araújo (Foto: Henrique Coelho/G1)

As análises da Safernet corroboram esta afirmação: segundo a ONG, quando são analisados de maneira mais aprofundada, é possível perceber que os casos de sexting — divulgação de conteúdos eróticos com a ajuda da tecnologia de celulares e computadores — podem ser considerados um problema de gênero.

Apesar de homens e mulheres compartilharem as imagens, elas são as que mais sofrem com o vazamento de imagens indesejadas e representam 81% das vítimas. Os homens são apenas 16% do total de queixas e 3% das vítimas não tiveram o gênero identificado.

Além de serem do sexo feminino, o perfil das vítimas que têm imagens vazadas é jovem. De acordo com as estatísticas da ONG, 53% têm menos de 25 anos de idade. Destas, 25% delas são menores, com idade entre 12 e 17 anos. Três estados do Sudeste estão no topo das notificações de vazamento de “nudes” contra a vontade das vítimas. São Paulo, que registrou 15 casos, o Rio de Janeiro, com oito; e Minas Gerais, com sete.

Vítima lamenta ter confiado na pessoa errada

Em abril de 2014, a estudante Lorena Gomes, de 22 anos, que mora em Campos, no Norte-Fluminense, sofreu um dos maiores baques de sua vida. Na porta de uma festa, ela descobriu que imagens íntimas suas estavam circulando por vários celulares por meio do Whatsapp. Elas teriam sido enviadas por um amigo, que foi a única pessoa que teve acesso às imagens. Na época, Lorena não denunciou o caso.

“Não fui à delegacia, nem nada, eu já estava morando em outra cidade e, na época, eu só queria que aquilo acabasse. Achei que, ficando em silêncio, estava fazendo o certo”, conta Lorena.

Após inicialmente se culpar pelo ocorrido, Lorena passou a expor a questão como uma maneira de conscientizar outras mulheres sobre o risco do compartilhamento de imagens íntimas. “Devemos usar isso como impulso para subir, evoluir, superar da melhor maneira possível. Mostrar, não só para as pessoas, mas principalmente para nós mesmos, que todos erramos, mas podemos superar sempre”, refletiu a estudante.

Sentimento de culpa

De acordo com Juliana Cunha, coordenadora psicossocial do Safernet, o sentimento de culpa costuma ser comum nestes casos. “Geralmente as vítimas sofrem com muitos transtornos, mentais, físicos e psicológicos”, afirma Juliana.

Segundo ela, o perfil dos crimes contra a honra pela internet mudou com a popularização dos smartphones e de aplicativos. “A gente tinha, antes de 2012, imagens mais frequentemente divulgadas em páginas de redes sociais. Os aplicativos aceleraram isso, e os números de casos de pornografia de vingança aumentaram”, explica Lorena.

Identificando abusos

A psiquiatra Carmita Abdo, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, concorda que a situação pode causar graves danos às mulheres, como depressão profunda e até tentativas de suicídio. Para ela, as mulheres devem estar atentas aos sinais que podem identificar uma situação de abuso.

“A gente tem que passar desconfiar a partir do momento que documentar a intimidade passa a ser uma insistência. Ele começa a querer fazer alguma coisa diferente, com o discurso de que deseja algo mais excitante. Principalmente em situações de crise no relacionamento”, afirma a psiquiatra, que lembra que as mulheres mais jovens acabam sendo presas mais fáceis para abusadores por conta da inexperiência, que as leva a confiar cegamente no parceiro.

A escritora e ativista feminista Daniela Lima afirma que o crescimento dos números de vazamentos de imagens íntimas é um reflexo de como a sociedade ainda vê o corpo da mulher como propriedade.

“Mulheres não têm autonomia sobre seus próprios corpos, de modo que o nosso ‘não’ é respondido com uma violência brutal: a vingança esteve e está muito presente nos relacionamentos. O maior índice de feminicídio é no ambiente familiar: companheiros, namorados, pais e irmãos matam mulheres que, de alguma forma, dizem ‘não’. Esse tipo de comportamento sempre existiu e a tecnologia se tornou um instrumento dele. Portanto, o que deve ser combatido coletivamente é o patriarcado – e não a tecnologia”, conta Daniela.

A escritora ressalta que a educação pode ajudar a reduzir este quadro preocupante, com a inclusão de debates de gêneros nas escolas, por exemplo. Ela também destaca que é preciso combater o papel de que a mulher, caso tenha enviado as imagens para um parceiro, seja considerada culpada, quando é, na verdade, uma vítima.

“A mesma sociedade que não discute a cultura do estupro, mas a roupa que a mulher estava usando ou o lugar onde ela estava quando foi estuprada, tenta responsabilizar as mulheres que se deixaram filmar. Nos dois casos, deixamos de discutir atitudes criminosas dos homens para culpar as vítimas. É uma crueldade extrema. Temos que agir contra esses limites impostos sobre o comportamento das mulheres: o problema não está nas roupas, no lugar que se anda ou nos vídeos, mas machismo”, afirma a escritora.

Como denunciar

Para Juliana Cunha, da Safernet, um dos principais problemas enfrentados pelas vítimas é a luta para apagar os registros das imagens vazadas sem consentimento. “O marco civil da internet foi um avanço, porque em seu artigo 21, ele garante o direito ao esquecimento. Se a empresa não responder, ela pode ser responsabilizada. Esperamos que as empresas também contribuam, porque a pessoa é revitimizada cada vez que a imagem é repassada”, explica.

O delegado titular da DRCI, diz que a vítima de um crime pela internet não precisa ir até a DRCI, localizada na Cidade da Polícia, no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. “A vítima pode fazer um registro em qualquer delegacia, que pede ajuda à DRCI”, orienta.

Ele lembra ainda que a internet não é uma terra sem lei. Os crimes que punem de acordo com o Código Penal também podem ser aplicados ao meio eletrônico e serem julgados pelas mesmas penas. “Se a injúria for praticada por meio que facilite a sua divulgação, a pena aumenta em um terço”, explica Thiers.

 

G1

 

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