Mai 27, 2022

Dono de loja diz que colocou 2 mil capacetes no telhado durante 14 anos para servir como isolante térmico; polícia apreendeu itens

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A loja de artigos para motos em São Paulo que viralizou nesta semana na internet após vídeos e fotos mostrarem o telhado dela coberto por 2 mil capacetes tinha um propósito. Segundo Francisco Hélio de Freitas Maia, de 58 anos, o proprietário do estabelecimento, há 14 anos ele estava colocado os equipamentos de segurança, um por um, para criar uma espécie de isolante térmico lá em cima. Os itens eram usados e doados por clientes, de acordo com ele.

Além de diminuir o calor dentro da loja, a outra função, segundo Hélio, era tentar impedir que ladrões conseguissem entrar pelo telhado da Hélio Motos, tradicional comércio especializado no segmento. O local fica na Rua General Osório, no Centro da capital.


“Se tratava de capacetes usados deixados na loja por clientes que adquiriram capacetes novos e que os deixavam no telhado visando impedir o calor na loja e dificultar a ação criminosa de indivíduos na sua loja”, disse Hélio em seu depoimento à Polícia Civil, que apreendeu todos os itens de segurança por suspeita de irregularidade.


Os policiais querem saber, por exemplo, se os capacetes foram roubados ou furtados de motociclistas já que não possuíam notas fiscais. Os agentes encontraram os acessórios por acaso, durante uma fiscalização em busca de possíveis irregularidades no comércio local de equipamentos para motos.


A imagem dos capacetes sobre o telhado da loja também foi mostrada do alto por helicópteros de emissoras de TV, jornais e sites e repercutiu nas redes sociais. "Cemitério de capacetes" e "mar de capacetes" foram alguns dos termos usados para descrever a inusitada cena.

O Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) conseguiu um caminhão que saiu lotado com os capacetes. Após prestar depoimento na Divisão de Investigações sobre Furtos, Roubos e Receptações de Veículos e Cargas (Divecar), Hélio foi liberado porque não foi comprovado nenhum crime contra ele.


“Com relação ao grande volume de capacetes”, Hélio “informou que estes foram juntados ao longo de 14 anos” e que “utiliza dois carrinhos de supermercado no interior da loja para o descarte e quando estes ficam cheios, os levam para telhado, faz um furo no meio deles e passa uma corda de aço”.


A 1ª Delegacia da do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) investiga o caso. “Os capacetes não tinham notas fiscais, por isso foram apreendidos”, disse nesta terça-feira (10) ao g1 a delegada Leslie Caran Petrus, que comandou a operação. "Ali é uma região conhecida como 'boca das motos' ou 'quadrilátero das motos' justamente por haver locais onde peças são comercializadas de maneira ilegal".


Cartaz na Hélio Motos pedia para clientes deixarem capacetes velhos e sem uso para descarte. Eles eram colocados no telhado da loja servindo como uma espécie de 'manta térmica' — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal


O g1 não conseguiu localizar Hélio para comentar o assunto, mas falou com a filha dele, Karina Freitas, de 31 anos, gerente da loja do pai.


“Sinceramente, depois dessa repercussão, ficamos com receio de fazer qualquer coisa. A gente estava fazendo o bem e tomou na cabeça”, falou Karina, que criticou a cobertura da imprensa no caso. “Não nos procuraram para saber que meu pai sempre colocou os capacetes no telhado para a loja não esquentar. Que foi uma solução inteligente para o descarte sustentável e ainda resfriava o ambiente interno.”
Karina diz que a loja é regularizada e não recebe, compra nem vende capacetes que tenham sido roubados ou furtados. “Somos honestos. Estamos no mercado há 29 anos, desde 1993. Meu pai chegou até a colocar um cartaz na loja pedindo doações para que doassem capacetes. Agora quem é que guarda nota fiscal de capacete velho?”


Questionada se a família pretende voltar a cobrir o teto com os acessórios, ela falou: "Meu pai está viajando agora. Depois vamos conversar, mas acho difícil porque é muita dor de cabeça de gente que não entendeu a proposta de que só queríamos dar um fim ecologicamente correto aos capacetes usados".



Capacetes descobertos por acaso


As peças foram descobertas por acaso pelos policiais. Eles fiscalizavam as lojas de artigos para motocicletas na região conhecida como “boca das motos” e, pela janela da sobreloja de uma delas, viram algo em um estabelecimento vizinho que lhes chamou a atenção.


“Olha a quantidade de capacete em cima do telhado da loja. Deve ser [de] vítima isso daí, né?”, diz um policial que filmou os capacetes cobrindo o telhado. O vídeo foi divulgado à imprensa pela polícia.
Segundo os agentes, os capacetes que cobriam o telhado iam dos mais simples, que custavam em torno de R$ 200, aos importados e caros, como os da marca japonesa Shoei, avaliados em cerca de R$ 6 mil. Em comum, todos estavam em “péssimo estado de conservação e de abandono”.


"Não tinha capacete Shoei lá no telhado. Era realmente coisa velha. No máximo algum capacete com etiqueta da Shoei", rebateu Karina, gerente da loja.


Como não foi comprovado que os capacetes estavam mesmo em situação ilegal, foi registrado um boletim de ocorrência “não criminal” de apreensão para investigar Hélio. Ele foi liberado em seguida para ir para casa.


Teto abrigava 2 mil capacetes, que foram retirados por suspeita de irregularidade por não possuírem notas fiscais — Foto: Divulgação/Polícia Civil



Outras 4 lojas fiscalizadas


Durante a ação da polícia, outras quatro lojas foram fiscalizadas. Dentro delas, os agentes apreenderam aproximadamente 1.200 itens de motos suspeitos de irregularidades.


Havia tanques de combustível de motos, entre eles alguns da marca norte americana Harley-Davidson, guidões, escapamentos, rodas e pneus sem documentos que comprovassem suas origens.


Os proprietários dessas lojas foram indiciados por infringir ordem tributária, econômica e de consumo. Depois, foram liberados para responder aos crimes em liberdade.



Capacetes para evitar ladrões


Em 2017, a TV Globo e o g1 noticiaram que o dono da Hélio Motos resolveu distribuir capacetes antigos que recebia ao vender os novos para seus clientes pelo telhado do imóvel. À época, ele também havia dito que o fato de os equipamentos de proteção possuírem material térmico ajudava a evitar o aquecimento, dificultando o contato dos raios de sol com o telhado.


A outra preocupação de Hélio, de usar os capacetes no telhado para dificultar o risco de ladrões entrarem na loja, não impediu, que o comércio fosse invadido por criminosos em 2018 por uma parede lateral. Este caso também foi noticiado à época pela TV Globo e pelo g1.

Hélio chegou a falar com a equipe de reportagem contando que os bandidos entraram numa loja vizinha à sua e abriram um buraco de mais de 80 centímetros na parede para atravessar para o outro lado.


Depois, furtaram aproximadamente mil capacetes novos. O crime foi gravado por câmeras de segurança. Os bandidos fugiram e nunca foram presos. Os objetos levados jamais foram encontrados.

 

g1


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