Nov 25, 2020

Depoimento de delegada sobre sumiço de arma de ex-chefe tumultua dia da posse

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RIO GRANDE DO SUL

11mai10-rs-depoimento-delegada-2Um depoimento prestado pela delegada Estella Maris Simon, diretora da Divisão de Armas, Munições e Explosivos (Dame), à Corregedoria-geral da Polícia Civil, na quinta-feira, pode ter apressado a queda do chefe da corporação, João Paulo Martins. Procurada por ZH, Estella confirma o depoimento, mas não detalha o teor das revelações.

– Eu falei o que tinha de dizer na corregedoria, que é o nosso órgão que investiga. Acrescentei algumas coisas que faltavam ao inquérito, mas não vou dizer o que é – resumiu Estella, que chegou a ser cotada para assumir o cargo.

À Cogepol, Estella teria dito que foi pressionada sobre o registro da arma em poder do delegado Martins. Zero Hora apurou que um policial teria sugerido que a guarda da arma funcional – desaparecida quando estava em poder do chefe de Polícia – fosse atribuída a outra pessoa nos registros da corporação.

Sem revelar o teor do depoimento da delegada, o corregedor-geral da Polícia Civil, Aníbal Germany, confirmou que o inquérito sobre o desaparecimento da arma aponta ainda indícios de irregularidades cometidas por policiais ao longo das investigações:

– Surgiram questões incidentais que terão de ser apuradas administrativamente em outro inquérito.

A principal hipótese para a saída de Martins da Chefia da Polícia é o sumiço de sua pistola funcional, em 24 de fevereiro, informação noticiada com exclusividade pelo colunista Tulio Milman, na página 3 de ZH. Como as circunstâncias do desaparecimento não foram totalmente esclarecidas e a arma permanece sumida, expeculações criativas ganham vida nos bastidores das delegacias de polícia. O episódio teria comprometido a permanência do chefe no cargo.

Ontem, em entrevista coletiva na Secretaria da Segurança Pública, o general Edson Goularte oficializou a saída de Martins e anunciou Álvaro Steigleder Chaves como o novo chefe. Na decisão de Goularte prevaleceu o continuísmo: Steigleder era o subchefe da Polícia Civil.

Perguntando se tentou convencer Martins a permanecer no cargo, o secretário respondeu:

– O livre arbítrio de cada um tem de prevalecer. As instituições são compostas por homens que se voluntariam para o exercício pleno de suas funções e quando somos convidados para as chefias desses órgãos, também podemos pedir um novo destino.

Em bom português, nenhum esforço foi feito para que Martins – cujo trabalho foi elogiado por Goularte durante a coletiva – mudasse de ideia.

A entrevista marcou também a despedida do chefe demissionário. Em cerca de 10 minutos de pronunciamento, ele justificou a saída alegando o “desgaste natural” da função.

– Numa instituição complexa, que envolve tantos interesses, não é possível conduzir uma administração sem desgastes – disse.

Constrangido ao abordar o episódio da arma, comentou:

– Ninguém melhor do que eu sabe o que aconteceu. Estão insinuando que esta arma foi extraviada por mim, insinuando que eu perdi num lugar suspeito. É um desrespeito.

– Que lugar suspeito? – quis saber uma jornalista.

– Não vou dizer, porque todo mundo sabe – complementou o delegado.
O novo chefe
- Álvaro Steigleder Chaves, 48 anos, começou a carreira como investigador em 1981. Onze anos depois, tornou-se delegado.
- Após estrear na função em Nova Bréscia, passou por delegacias da Região Metropolitana (Alvorada e Gravataí), Vale do Sinos (Novo Hamburgo) e pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), onde esteve no comando das especializadas de Roubo de Cargas e Roubo de Veículos.
- Depois, atuou como delegado regional em Gravataí e em São Leopoldo e chegou à direção do Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc).
- Desde 30 de janeiro de 2009, o delegado ocupava a subchefia.

"Não tem outra história obscura por trás disso"

Com dois anos de corporação, o inspetor Fabrizio Vicente dos Santos, 30 anos, é um dos personagens de uma história ainda não totalmente esclarecida. Motorista do chefe da Polícia Civil, foi Santos quem deixou a viatura numa lavagem da corporação. Dentro dela estaria a pistola do delegado João Paulo Martins, ocultada sob o tapete. Ao retornar para buscar a viatura, a arma teria desaparecido. O caso, investigado pela Corregedoria-geral da Polícia Civil, aguarda desfecho. O episódio teria sido a principal hipótese para justificar a saída de Martins do cargo, formalizada ontem à tarde. A seguir, uma síntese da entrevista:

Zero Hora – Vamos conversar?

Fabrizio Vicente dos Santos – Eu não vou contar toda história, tá? É isso aí: a história é a mesma do chefe, eu vou falar o que ele já disse.

ZH – O que o senhor não pode me falar?

Santos – Não tem outra história obscura por trás disso. A mesma versão dele é a minha.

ZH – Quando o carro ficou no pátio da secretaria, na manhã do dia 24 de fevereiro, ele estava aberto ou fechado?

Santos – Eu deixei o carro fechado, com alarme acionado. Não teria como alguém mexer no carro ou saber que tinha uma arma embaixo do tapete. A possibilidade de a arma ter sumido lá é muito pequena.

ZH – E depois, o que aconteceu?

Santos – Saímos da secretaria da Segurança e fomos para o Palácio da Polícia. Lá, eu deixei o chefe e larguei o carro na lavagem (no prédio anexo ao Palácio). Peguei o carro umas duas horas depois.

ZH – Quando o senhor percebeu que o revólver tinha desaparecido?

Santos – Logo que o chefe entrou no carro, à tarde, ele sentiu a falta da arma. Ele me perguntou eu disse que não sabia da arma.

ZH – O que vocês fizeram?

Santos – O chefe fez um contato com o pessoal da garagem e perguntou sobre a arma. No dia seguinte, eu fiz ocorrência de extravio da arma.

ZH – Era comum o chefe deixar a arma no carro para participar de algum evento?

Santos – Comum, comum, não era.

ZH – Essa arma pode ter sido perdida em outro lugar?

Santos – É complicado afirmar isso. Em nenhum momento, o carro ficou tão exposto como na lavagem. A arma estava embaixo do tapete.

ZH – O carro era lavado com que frequência?

Santos – Sempre que necessário. Naquele dia, nós tínhamos um evento à tarde. Naquela última vez, quando aconteceu o fato, eu pedi para eles não lavarem por dentro porque o carro tinha recém chegado da revisão. Mas eu deixei a chave com eles.

ZH – O senhor sabia que a arma estava embaixo do banco. Não deveria ter retirado antes de deixar o carro na lavagem?

Santos – Se eu tivesse me lembrado, sim. Mas eu não temo ser penalizado. A arma é do chefe.

ZH – O senhor teme que se transforme numa mancha no currículo funcional do senhor?

Santos – Eu não gostaria que isso tivesse ocorrido. Ninguém gosta de uma situação que nos desabone. É um imprevisto que acabou acontecendo comigo.

ZH – Na opinião do senhor, qual o peso do furto da arma na saída do chefe?

Santos – Sinceramente? É para publicar?

ZH – Sim.

Santos – Acho que foi pouco.

ZERO HORA

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Revista da Defesa Social
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