Out 23, 2020
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Por Moisés Dornelles

'História Oficial'

Historiadores buscam reconstruir a história. Valem-se das mais variadas fontes de informação para obter o máximo de aproximação da realidade. Leio, por exemplo, com um grau considerável de sarcasmo o que os livros didáticos do Ensino Médio dizem sobre o Plano Cruzado, de 1986. Isto, para mim, não foi história, foi vida. Uma outra intensidade. Eu vivi aquilo. Estava lá, quando anunciaram o feriado bancário para a troca de moeda e indexação. Vi congelarem os preços, paguei ágio.

 

Ouvi a conclamação a nos tornarmos “fiscais do Sarney”. Lembro-me de pessoas próximas a mim defendendo o plano com unhas e dentes, e em contrapartida, meus professores de história da faculdade, com as mesmas unhas e dentes derrubarem qualquer possibilidade do plano dar certo. E não deu. A história oficial assim acusou. Planos e planos se sucederam a este. Eu vivi, ninguém me contou. Quando a micro história entrega-se, por um propósito maior, à macro história, o resultado são as vítimas da história oficial. Estas, tão numerosas quanto as catástrofes naturais que têm assolado nosso querido e combalido planeta.


Um homem estaciona seu carro em frente a uma pizzaria, a fim de buscar sua esposa que fora visitar a mãe. No início da noite, a pizzaria já conta com um número considerável de fregueses. Distraidamente o homem sai do carro e é prontamente abordado por dois sujeitos. Objetivo primário: assalto à mão armada. Levar o carro para o Paraguai, essas coisas normais de praxe da vida moderna. Ao ver que o homem estava armado, pois era um policial aposentado, o assaltante não hesita, atira no homem e se afasta.

 

Dos tiros disparados, três acertaram o policial, que mesmo ferido, saca de sua arma a fim de defender-se. Instinto. Um outro instinto, o de proteção sobrepõe-se ao anterior: os assaltantes estavam na frente da pizzaria. O homem hesita. Não quer ferir ninguém, então não atira. Os assaltantes fogem, sem levar nada, ou quase a vida do policial. Este é acudido e levado para o hospital, onde a história oficial tem seu início. Logo, logo, ele se transformará de tragédia pessoal em estatística. Estatística de morte, estatística de assalto. Mas ele não morre e vira estatística de sobrevivente. A força de um evento perde toda a intensidade quando vira estatística. Vai ver então que é por isso que ela existe.


A ocorrência policial. Do relatório escrito é que se tira a notícia que vai parar no jornal. “Delegado aposentado, assaltado em frente ao edifício onde morava, atira nos assaltantes, descarrega sua pistola sem acertá-los e é baleado”. Bem, ao menos eles acertaram que o policial era um delegado aposentado. O que apareceu no jornal e o que está na internet não é, nem de longe o que aconteceu, visto por quem viveu o fato. Mas, que fique assim, afinal, é só estatística.


Reporto-me a 14 de julho de 1789, em Paris. Uma época em que a história oficial só era contada e lida pelos poderosos. A grande maioria da população francesa não sabia ler nem escrever, não precisava. Sentado à beira de uma fonte, estou eu, menestrel poeta, perdido em devaneios (eu sabia ler e escrever), procurando as palavras adequadas para uma nova canção. Quem sabe cantar um futuro onde os homens pudessem voar alto no céu. Seria chamado de louco, mas... menestrel... essas coisas novas, essas ideias novas invadiram aquela época clamando por um mundo mais igualitário.

 

Surgiram livros que derrubavam o senso comum e que balançavam a cabeça de quem os lessem. Discursos inflamados nas praças levavam o povo a protestar contra impostos absurdos e contra a tirania de um poder absoluto que gastava demais ajudando camponeses da América do Norte a se libertar do poder inglês. Sentado então, perdido em pensamentos, ouço um barulho ensurdecedor de vozes, rodas, carroças e tiros. Líderes iam à frente da turba incitando o povo à revolução. Gritos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade ecoavam nos meus ouvidos. Aquilo, realmente... estaria acontecendo? Ao passarem por mim, mosquetes, foices e tridentes bramiam furiosos. Um integrante da procissão revolucionária incitou-me a participar do levante.

 

Disse-lhe apenas que eu estava compondo uma canção do amor real. Acho que o homem não ouviu a palavra amor, e somente “real”. Bem, perdi meu braço com um golpe de espada. Devido ao ferimento, não sobrevivi para perceber que eu estava diante do acontecimento que mudaria a vida do mundo civilizado. Sorte que naquela época não haviam estatísticas para detectar quem era revolucionário e quem era reacionário. Eu seria uma vítima da história oficial, com certeza.

Somos vítimas dessa inexorável história, a oficial. Contada por quem possui interesses próprios , ela, juntamente com estes, exerce poder. Não há notícia sem informação e não há informação sem pressuposto. A história só é justa para quem a escreveu (seria o que os astecas diriam). Só não gostaria que no futuro, ao cruzar informações, um historiador chegasse à conclusão que certo setor da polícia não era treinado o suficiente. Onde já se viu um delegado errar todos os tiros? Sim. Somos todos vítimas da história oficial.

P.S.: Essa crônica é uma homenagem ao meu pai, uma vítima da história oficial.

Por Moisés Dornelles

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